Notas familiares

 

1. Carta para avó – latifúndio

Você se encontrava estirada, enorme, num trono ornada com vestes majestosas; eu estava sentada no chão com um vestido solto branco e a abanava com uma pena de pavão. Nada era dito. Apenas o som do vento indo e vindo era nosso vestígio. As ações eram tácitas, acordadas com o seu olhar subalternizante da realeza de vó diante da neta.

Não lembro em qual momento tive esse sonho. A minha única certeza era de que você ainda estava viva e o devaneio representava um pouco dos meus sentimentos infantis. Ainda criança, toda a sua gordura me transmitia um sinal de força. Força permanente, forjada em pernas e braços flácidos, mas sempre ágeis. Os beiços, em que o lábio de baixo sempre se projetava sobre o de cima, como se formassem um bico, acolhiam uma língua maliciosa. Seus óculos, com lentes grossas bifocais e armação caramelo, cobriam basicamente toda a sua face, a fazendo me ver melhor.

Minha tarefa era não só fugir dos seus comentários e ações sobre os outros, sobretudo, os que envolviam pretos e pobres, mas dos que diziam respeito a mim. Pior quando as questões se misturavam.

- Você tem o cabelo de Maria Bethânia. Puxou o lado favelado da família, dizia ao mencionar sobre meus fios crespos e mal penteados de criança.

Apesar da clareza desses detalhes, buscava na minha infantilidade por seu carinho. Colo de vó, mimo de vó, comida de vó, casa de vó, cheiro de vó, pano bordado pela vó, biscoito assado pela vó, meia de Natal feita pela vó. Só que nada disso havia. Lembro apenas do boneco oco em formato de frade, enfeite de cima da sua geladeira, recheado de bombons. Eram proibidos de serem comidos pelas crianças, porque você os tratava como sagrados, tal qual o padre que os travestia. Só podiam ser meticulosamente servidos após o almoço, sempre em momento de cerimônia familiar.

Admito, então, que você passava ao largo do clichê de vó, mas sempre num sentido dúbio, cruel. Não à toa, algumas bonecas de cabelo amarelo caíam de vez em quando em meus braços em formato de presente da vó, enquanto minhas irmãs permaneciam com as mãos ocas. Eu era a neta preferida? Sempre me diziam que “sim”.

Apesar da minha cautela sobre você, não ignorava aqueles sentimentos bons que a envolviam tão só pelo fato de você ser “vó”, a progenitora de parte da família. Eu quase implorava pelo lugar-comum.

- Sim! Eu quero um crochê com babados e sequilhos feitos na hora, pensava.

Em busca deste bordão, por exemplo, eu viajava contente para vê-la em sua casa onde morava só, me conduzindo da capital em direção ao interior de Minas Gerais de tempos em tempos. Gostava de sentir o gosto do seu mundo de “viúva, esposa de coronel, mulher respeitada e de valor”. Assim, escutava o “tarde” arrastado usado como cumprimento entre conhecidos; comia o queijo que nunca vi vender em lugar diferente; misturava todas as águas medicinais numa garrafinha tosca na garantia de uma dor de barriga em seguida; sentia o cheiro de bosta de cavalo das charretes que movimentavam as ruas da cidadezinha. Era feliz na minha meninice ao seu lado de vó.

No entanto, tive certeza de você ser um latifúndio de gente – grande, mas improdutivo se o assunto era amor - quando, em uma dessas viagens, sentada na poltrona da janela do ônibus que me levaria à capital, eu chorava sem consolo ao pensar em você vivendo tão sozinha. Ao avistá-la em meio à multidão na rua, porém, notei seu rosto impassível, com o típico bico nos lábios, no aguardo pela partida do ônibus. Nesse momento, nossos olhares se cruzaram, o meu molhado e o seu árido. Não a vi nem piscar. Nenhum aceno de mãos ou de cabeça. O ato que você compunha era um compromisso a ser respeitado pela “figura da vó”. Minhas lágrimas nunca a atingiriam, nunca a amorteceriam, nunca reverteriam sua secura. Logo, mirei a loja de objetos de couro próxima de onde estava e não a procurei mais no amontoado de gente até a partida do ônibus.

Este rompimento se manteve até vê-la adoecer na minha adolescência. Você veio para a capital fazer um tratamento de saúde pouco acessível no interior. Mas eu já não esperava nada. Ao contrário. Seguia consciente à espreita, agora despida do olhar ambíguo infantil. Não à toa que, numa briga familiar, cujos motivos são ignorados por mim até hoje, a vi lançar seu corpo imenso contra a minha mãe. Na mesma hora, gritei e segurei seu braço roliço para evitar que ferisse alguém. Você ficou irada. Seus olhos chisparam.

- Sou sua vó, moleca!

É? NÃO. Virei as costas e bati a porta com todas as minhas forças. Meu coração pulava dentro da camiseta. Não nos falamos mais.

Meses depois você morreu. Poupei minhas lágrimas desta vez. Cumpria apenas meu papel de neta ao comparecer ao seu enterro. Mas vi curiosa as alças da tumba se quebrarem durante o cortejo. O caixão, carregado por dez homens para darem conta de seu peso, se abriu e mostrou não haver nada dentro. A morte estava lá, ocupando seu espaço sepulcral. Já o corpo não, porque, de fato, você nunca existiu. Toda a sua grandeza de vó era inventada em feição de armadura. Você a pegou emprestada em sua existência estéril de amor. Ninguém estranhou o fato. Talvez só eu o tenha percebido. Então, de forma maquinal, fecharam a caixa de madeira, os primeiros sinais de terra começaram a cair em cima dela, a fazendo desaparecer aos poucos.

Anos mais tarde, já adulta, tive a oportunidade de dar uma passada rápida na cidadezinha onde você morava em terras mineiras. Tinha decorado o caminho da rodoviária até sua casa. As lojas, as pessoas, a igreja, as árvores... tudo era mais ou menos igual. Ao virar em sua rua, avistei onde você viveu. Atônita, na calçada, comecei a tirar fotos do portão da casa para indicar às minhas irmãs um registro perdido de nossas infâncias. Não tínhamos nada sobre o seu lugar.

Logo, surgiu de dentro da residência uma senhora, questionando quem eu era. Expliquei ser neta da antiga moradora.

- Lembra?

- Claro! Sua vó era tão boazinha, mulher de coronel. Muito respeitada na cidade. Quer entrar para ver a casa?

- Posso?

No umbral do ambiente, senti completa desconexão. Nada mais ali parecia igual, mesmo a disposição das paredes ou do teto, aspectos que pouco provavelmente mudariam com uma troca de proprietários. Talvez eu não tenha conhecido o real na casa quando criança. Somente disponho de esboços de memórias sobre um local projetado por mim, muito borrado após aquele dia na rodoviária. Com esta visita, minha única certeza foi de que nunca estive de verdade à vontade perto de você e no seu espaço. Sempre me mantive sem saber onde colocar as mãos. Sorri, então, amarelo e disse para a senhora estar na hora de ir, “não queria perder o trem”. Agradeci com o delicioso “tarde” mineiro e me despedi.

Tranquila, caminhando pela rua, notei uma pena de pavão pairar do céu até o chão, pisoteada por quem passava. Eu optei por não a guardar comigo. Preferi o “adeus, vó”.


2. Carta para a avó – a pequena bailarina

Uma estátua de Getúlio Vargas enfeitava os móveis antigos de madeira da casa, construída a muitas prestações suadas, em uma vila despretensiosa em Niterói, Rio de Janeiro. Uma foto da Nossa Senhora Auxiliadora protegia a todos, recebendo um beijo estalado cotidiano da pequena Zita. Cabelos cor lilás; com peso de criança menina; rosto bastante enrugado; nariz adunco, meio desproporcional em relação à face – do qual me orgulho de ter puxado -; e de uma casmurrice sem limites, facilmente quebrantável, porém. Essa era você, na minha visão infantil e, em parte, na minha adolescência.

A “pequena sortuda” ou a “pequena afortunada”, significados de seu nome, não parava um minuto. Sempre atenta ao mundo ao seu redor, movimentava-se como uma bailarina com seu corpo miúdo, cuidando com zelo de todos da família: esposo, filhos, netos e irmãs. Cuidar e cuidar e cuidar. Esse era seu ofício cotidiano, invisível, de pouco prestígio para alguns, mas valorizado pelos que viviam sob os efeitos de sua atenção. Quando o trabalho era um pouco mais árduo, uma ponta de língua surgia no canto dos seus lábios. Um pequeno ato que guardo com afeto, feito de modo automático, que acabo me vendo repetir em determinadas situações.

Zita, você me impactava com a capacidade de fazer tanto com tão pouco. É clichê dizer que você era uma bailarina com braços e pernas de pedras constituidoras de uma fortaleza?  Suas ferramentas eram as mãos e, já ao final da vida, você contava com apenas um quarto de seu coração para desenvolver as múltiplas tarefas reproduzidas por anos.

- Tá gorda, essa menina, dizia dando tapinhas rápidos em minhas bochechas todas às vezes em que me encontrava.

Admito não entender muito sua forma de mostrar carinho na minha meninice e, por isso, ficava brava por ignorância. Mas, hoje, escrevendo esta página, não me faltam saudades daquele estranho e sincero gesto. Ainda assim, sabia ser uma sortuda, não apenas por ter uma avó cujo nome apresentava significado que remetia à questão. Eu entrava em uma casa de vó onde sabia poder e queria colocar as mãos. E costumava botá-las em tudo: abria armários, corria pelos quartos, brincava com os cachorros, atazanava minhas tias velhinhas cuidadas por ti, cantava como meu avô enquanto ele remexia seu violão, a abraçava pelas costas enquanto você lavava louça - que nunca podia estar suja - e ouvia no ato um resmungo delicioso. Já velhinha, a colocava no colo como um bebê de tão magrinha que era.

- Para como isso, menina. Sou sua avó!

      Eu ria e você também. Éramos cúmplices numa felicidade clandestina. O amor estava sempre lá, embora às vezes camuflado de modo estranho, seja em misturas incomuns de comida servidas no almoço, como empadão com maionese e feijão; seja no ajeitar do velho sofá cama localizado na sala da casa, o qual me aninhava quando era pequenininha; seja na lata de doce de leite feita na panela de pressão através de leite condensado, sua paixão.

- Cuidado. É perigoso se estiver quente demais, dizia.

Queria ter a conhecido melhor, com mais profundidade, distante das brigas vis de nossa família. Gostaria de ter mergulhado nas suas memórias e nos seus quereres e nas suas diversas facetas, não só daquelas de vó. Só que era nova demais, boba demais, menina demais. Não sabia como fazer, ou mesmo, tinha dúvidas se devia agir assim. Minha única intenção infantil era querer brincar em seu jardim no fim de tarde, tagarelando meninices, depois do colégio. Já às 18h, na “hora do anjo”, precisava ficar quietinha, o que fazia com muito respeito. Vovô e você rezavam em uníssono pelos dois e por nós.

Confesso, porém, que suas tentativas de me levar à missa foram em vão. Já era meio rebelde mesmo na minha infantilidade - ou talvez em reforço à minha infantilidade, não sei. Esperta, a via fazer vista grossa em relação a alguns de meus atos, como eu dar de ombros às palavras ininteligíveis de um padre. Ia à Igreja quando ficava em sua casa pela sua companhia, jurando intimamente nunca fazer a primeira comunhão e a desaprender o que era falado na missa. Ainda assim, segurava firme e orgulhosa sua mão, brincando na madeira onde se ajoelha durante os muitos rituais católicos.

- Tira os pés daí, menina!

No fundo, queria que você se orgulhasse de mim em algo tão importante a você. Só que eu nunca fui muito fácil e gostava de, ao mesmo tempo, desafiá-la. Então, entre outras coisas, fiz questão de aparecer na sua casa, como quem não quer nada, já meio pré-adolescente, com o livro “Anarquistas graças a Deus”, de Zélia Gattai. Meu intuito era mostrar a você algo que já começava a formigar e faria parte de mim pela vida.

- Que livro é esse, menina? Vai comer criancinha?, me dizia exasperada, enquanto a estátua de Getúlio vibrava em cima da sua estante. Depois, você não tocou mais no assunto. Minha integridade se manteve intacta, apesar das minhas incisivas para o contrário.

Do que lembro bem foi de nossa última conversa. Todo dia você ligava para minha casa, mesmo que fosse para desejar um mero “boa noite”. Atendi o telefone e a ouvi dizer estar guardando páginas de um dicionário, brinde de um jornal diário. Eram outros tempos, momento em que a internet era mera futurologia.

- Talvez ajude vocês no colégio. Venha aqui em casa buscar, Tatá.

- Vou sim, vó, respondi.

Mas revelo que disse por dizer. Não estava nos meus planos ir à sua casa no dia seguinte. Mais, nunca fui pegar o tal dicionário, pois você partiu antes. Como uma pessoa tão ativa, cheia de pulsão de vida, pode dizer adeus tão rápido? Seu um quarto de coração deu um basta de súbito ao mundo. Você precisava descansar depois de tantos anos velando pelos outros. “É sempre a hora da nossa morte”, dizia meu aprendizado deturpado católico. Mas entendo que a partida veio para deixá-la mais confortável. A vida pode ser dura e sei que a sua não foi nada fácil. Suas mãos e seu coração, agora bombando por completo, poderiam ter uma serventia para você própria. É bom ter tempo para si.   

No entanto, sua morte foi forte demais para o vovô que, em sua ausência, perdeu toda a sua vitalidade e resolveu se despedir também. Não havia um dia em mais de 50 anos de casamento em que ambos não se davam tchau por um motivo qualquer com um estalinho na boca, assim como o fazem os adolescentes de namoro no portão de casa. Como isso seria feito agora, com sua morte?

- Vai, vô, dizia a minha intuição.

De todo modo, aprendi que o mais triste não é perder uma pessoa. A vida é um vai e vem numa estação cheia de chegadas e partidas, já disse sabiamente o Milton. A tristeza é maior quando o tempo espraia a memória. Me forço a lembrar de você, vó, e do seu estranho e grande amor, projetado num corpo miúdo de menina fortaleza bailarina. As memórias relacionadas a você se organizaram em mim em diferentes cavernas, sendo pouco ou quase nunca visitadas. Lembro pouco, ao mesmo tempo em que lamento muito. Mas, tratando de você, não tenho dúvidas de que meus subterrâneos que a abrangem são compostos por lagos coloridos. Algum, inclusive, deve apresentar o inconfundível lilás que moldava sua face, cuja vontade eu tinha de comer como algodão doce. Posso bebê-lo também. Não me importo.

Ah! Não poderia deixar de dizer que, agora mais velha, como queria aquela estátua de Getúlio para colocar em minha estante.... Me empresta?

        3. Carta à Vânia

             Belo Horizonte, algum dia de janeiro de 2023.

 Boa tarde, Vânia. Espero que esta carta a encontre bem.

 Há muito tempo não nos falamos e queria deixar claro desde já não escrever para reatar laços. De minha parte, nossa relação se quebrou de vez no último ano. Não quero qualquer contato contigo, porque você me deixa sempre à espreita, em alerta, como se algo ruim fosse acontecer, mesmo que travestido de palavras em tom doce. Aprendi a me defender, ainda mais durante o tratamento de leucemia, quando tanto precisei cuidar de mim, sobretudo, a filtrar pessoas que pouco me adicionam ou não incluem nada.

 Admito que nossa relação nem sempre foi assim. Tenho algumas boas lembranças da minha infância: abrir as panelas no fogão antes ou depois de chegar da escola para saber o almoço do dia; botar o dedo no bonequinho da antiga máquina de lavar Brastemp que girava e girava enquanto a roupa centrifugava, só para sentir um formigamento nas mãos indescritível; fazer o dever na Kombi, cuja tarefa era me levar da escola para casa, para poder brincar um pouquinho no pátio do prédio depois do colégio; comer pizza do La Mole aos sábados; ganhar de Natal aos 8 anos a sandália da Xuxa que mudava de cor de acordo com o bater do sol; viajar para São Lourenço para ver a avó; contar as estrelinhas no teto do quarto à noite, que nada mais eram do que adesivos brilhantes no escuro.

 Enfim. Quando criança, posso dizer pairar sobre mim a ideia de felicidade através de diversos pequenos fatos e coisas, que teimam em passear pela memória. Do mesmo modo, aprendi a “não levar desaforo para casa”, coisa que você me ensinou e, creio eu, sou bastante promissora em seguir tal conselho. Fui orientada também a ser independente. Só que aí começa a parte meio torta da nossa história.

 Uma vez, conversando com uma amiga, ela me disse que a mãe não a havia ensinado a se “virar no mundo”. Os abusos eram tantos na infância e na adolescência, que ela havia se encolhido, com medo de tomar certas decisões. Eu disse que, diferente dela, neste caso, eu devia muito a você.

 A última vez que lembro de você cuidar de mim foi no dia de minha formatura no ensino médio. Uma maquiagem linda se desenhou no meu rosto através de suas mãos, enquanto as meninas do colégio foram ao salão para um dia de beleza. Como as coisas em casa não estavam bem, pensei na hora sobre seu forte potencial para ser mãe. Contudo, infelizmente, este vislumbre se espatifou no chão com sua tentativa de suicídio alguns dias depois.

 A partir dali percebi não ter mais jeito. Em minha interpretação, o fato de minhas irmãs e eu ganharmos autonomia desfez seu domínio sobre nós, a desatinando. Não à toa, sua tentativa de suicídio, entre outros motivos, se concretizou num rito de passagem importante à vida adulta de classe média: fazer vestibular para entrar na faculdade. Ainda assim, a linda maquiagem se manteve em minha face para mascarar uma relação “mãe e filha”. Por outro lado, se os momentos genuinamente felizes vividos na infância me impulsionavam a viver o dia a dia, desde então, os abusos ganharam tonalidade cor de neon. Troquei de óculos, com lentes mais potentes.

 Lembra da vez quando estava com dengue, há mais de dez dias com diarreia, vômito e febre, e você disse ser frescura? Depois de sair da inércia, meu pai me levou no colo ao hospital e tive de ficar quatro dias internada. Estava com hepatite medicamentosa de tanto Paracetamol que havia tomado para aplacar a febre. Afinal, só tinha 18 anos. Não sabia cuidar de mim como cuido hoje.

 Lembra quando você me acordou batendo o pano de prato no meu rosto, porque os filhotinhos de cachorro que tínhamos acabado de ter estavam chorando e a despertou? Eu lembro de estar sonhando com bolos de doce de leite, quando fui violentamente trazida à realidade.

 Lembra quando você chamou minha amiga da vida toda até então de “puta” e “sapatão”, porque me abri contigo e disse estar magoada com ela por um motivo qualquer típico de adolescentes?

 Lembra de, sem dinheiro, o que nunca era novidade na família, você me dar um presente e eu precisar mostrar extrema gratidão, quase me humilhar?

 Lembra das tardes em que ficava sentada ao seu lado, ouvindo seu choro e seus traumas, como ter largado a faculdade para ser mãe, e eu me desculpava compulsivamente pela situação?

 Lembra das brigas entre você e meu pai, com abusos físicos de ambos os lados, e minhas irmãs e eu precisarmos apartá-las? Em uma delas, o Victor começou a ficar com um lado do corpo torto, como se fosse ter um AVC, e só assim nos acalmamos.

 Lembra que, num dos muitos enfartos do meu pai, estávamos nós duas no hospital, minhas irmãs fora do Rio de Janeiro, você deu um escândalo por um motivo qualquer, pegou todo meu dinheiro, tomou um taxi e me deixou na recepção enquanto Victor era operado? Uma senhora que presenciou a situação perguntou para mim se eu queria um abraço: “sim, por favor”.

 Lembra, quando eu já morava em Brasília, eu tinha o costume de todo mês ir ao Rio de Janeiro ver você e meu pai? Às vezes, já no ponto de ônibus, em geral com um presentinho na mão, um dos dois me ligava pedindo para não ir visitá-los: ambos estavam “cansados”.

 Lembra que dois dias após a morte do meu pai, você expulsou a mim e as minhas irmãs de casa, gritando dar tudo para que tivéssemos morrido no lugar dele? Lívia e eu cuidamos de praticamente todo o inventário, enquanto ficávamos num hotel, e, assim, gastamos o dinheiro que não tínhamos para dar menos prejuízo a você. Como “resposta”, após dois meses, você se juntou com outro homem, apresentado a mim por câmera, de modo muito fortuito, anos depois. Na verdade, você só contou estar com ele quando voltei de Brasília para um período curto ao Rio de Janeiro à trabalho. Talvez você não quisesse que eu fosse de surpresa à sua casa e, assim, me deparasse com um desconhecido. Há seis anos não piso no lugar onde meu pai morou, onde os móveis da minha infância estão. Ainda estão, na verdade? Minha última memória de lá é o dia em que você nos mandou embora aos berros após a morte de Victor.

 Lembra, mãe? Lembra? Lembra? Pelo menos, espero que você não esqueça de não estar comigo em nenhum segundo durante meu tratamento de leucemia. A máscara funcionava em todas as situações descritas. Em alguma medida, eu relativizava suas ações, mantendo uma relação mesmo que esporádica contigo. Agora, nossos laços se desfizeram. A maquiagem borrou e resolvi retirá-la com um lenço de limpeza. Não haveria mais nenhuma beleza ou potencialidade nela.

 Eu lembro de muitas coisas mais, como o mamoeiro retirado com suas próprias mãos para machucar a Lívia e eu, por exemplo. Mas cansa escrever sobre o assunto. Cansa reviver o trauma, ainda que tratá-lo seja importante para termos noção de quem somos. Por isso o faço nesta carta, cuja serventia é maior para mim do que a você. Até mesmo porque, gosto de reforçar de vez em quando, sobretudo, se fraquejo, que todas essas situações me tornaram quem sou. Não a agradeço pelo horror. De forma alguma. Apenas tenho escárnio por ele. Admito, porém, ter orgulho de tê-lo ultrapassado na medida do possível, sem esquecê-lo. Sou forte, autônoma, sem medo de tomar decisões na vida. Meu foco é no que está por vir, com os pés no presente.

 Agora, mais velha, não desejo seu mal, tampouco sinto revolta, como uma vez você disse. Não sinto nada. Em absoluto nada. Você passou por mim e se foi, assim como tantas outras pessoas foram marcantes, mas também seguiram seus próprios rumos. Não diga que “mãe só tem uma”, como já ouvi por aí, porque, além de clichê, reforço ter caído a máscara. A maquiagem se esgotou. Não vamos mais forjar uma relação fracassada há tempos.

Meu único desejo a seu respeito é que se cuide e seja feliz a seu modo, longe de mim.

Thais

Ps: esta carta nunca foi enviada.

 

4. Carta ao meu pai

Admito não lembrar de ter conversado contigo por mais de 15 minutos corridos, sem interrupções, apesar de termos vivido sob o mesmo teto por 20 anos. Seu papel era o de prover a família com seu salário de professor universitário compenetrado, um intelectual. Quando trabalhava em casa com seus papeis, gráficos, letras emboladas com números, o ambiente onde você se encontrava era sagrado. Não era permitida gritaria, tampouco interrupções. Cheia de ironia infantil, pensava:

- Um gênio pensando...

Em uma de suas aulas, já adolescente, apareci de surpresa e sentei na primeira fileira de cadeiras. Você nem me notou, só repetia muitas vezes aos seus alunos:

- Qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?

Eu não entendia nada, pensando até ser o cavalo azul, dada a obviedade da pergunta. Eu não pertencia àquele seu mundo. Não era a pessoa que eu conhecia em casa.

Não quero ser dura. Eram os tempos e a conformação familiar criada. A mãe cuidava, o pai supria e as filhas obedeciam. De vez em quando, você intervinha em algo sobre a educação mais formal ou em alguma atividade simples do cotidiano, tudo conversado, se conviesse meu envolvimento, em menos de um quarto de hora. Não posso ignorar também as características de Vânia que, quando exaltada, gerava o horror em todos os espaços da casa e das nossas mentes, inclusive da sua. Do mesmo modo, tenho clareza de que no início do casamento de vocês, quase duas crianças de terno e grinalda, suas características violentas maculavam qualquer possibilidade de amor entre um casal, gerando rompimentos duros. Num deles, enquanto eu te via partir pela janela do prédio com minhas duas irmãs, disse em voz alta.

- Ele é bonzinho. Eu sei. Ele sempre traz bala para mim.

Entre muitas idas e vindas matrimoniais, as quais cessaram na minha adolescência, percebi ter algo mudado em você ao longo do tempo. Não necessariamente para o bem ou para o mal. Mas sua presença, mesmo que silenciosa, pareceu se reforçar. Você se acalmou, ao passo que sua característica taciturna ganhou espaço. E é isso o que guardo de lembrança sobre você, meu pai. Não acolhi palavras muito sábias ou medidas enérgicas em momentos violentos gerados por Vânia. Admito que sinto falta disso.

Por outro lado, abrigo em mim a sua presença, travestida de várias formas, não apenas na do “gênio pensativo” ou do pai omisso, que tanto me incomodavam. O cheiro de papel com cigarro, a pasta velha de documentos organizada sem qualquer nexo, seu amor pelos bichinhos, o olhar terno quando desenhávamos nas suas provas e você as entregava aos alunos entre a vergonha e o orgulho, acordar e ver a baguete recheada de manteiga ao som da colher batendo o leite com achocolatado. Nada era dito. Não precisava. Você e eu estávamos lá. E o amor também.

A gente sempre espera palavras como promessas. Já aprendi, porém, que esses gestos, alguns genuínos, claro, não vou ser generalista, são os mais frágeis. No dia a dia, na sua casmurrice, você me ensinou que alguns atos são mais firmes do que diálogos que terminam com um “eu te amo” sem raiz. Preferia o seu tradicional “que Nossa Senhora te proteja e São Jorge te guarde”, dito, primeiro, nas minhas idas ao colégio e, segundo, em qualquer telefonema que fazia a você de alguma parte do país já adulta.

Mas por que você era tão infeliz? Você parecia guardar uma tristeza, daquela que bate fundo e está tão escondidinha que não quer encontrar o sol. Para mim, esse tipo de sentimento é o mais perigoso, porque corrói, dói tanto na alma, que produz desgaste físico. O corpo sente. Não à toa, seu coração era frágil, precisando de reparos de vez em quando. Sabendo disso, tentando alcançar desesperadamente com algum sucesso este seu fosso escuro, entre outras coisas, cantei em seu ouvido uma vez uma de suas músicas preferidas, cujo verso diz: “Nowhere man, the world is at your command”. Foi a última vez que nos vimos e nos abraçamos.

Você me ouviu direito naquele dia, pai? Às vezes fico em dúvida; às vezes acho que você se emocionou, mas não teve coragem de admitir. Eu até hoje fico com os olhos molhados em pensar na ternura em sentir você ali naquele curto espaço de tempo. As coisas vividas mais maravilhosas se esvaem rápido, como a areia fina e branquinha passa pelos dedos num dia quente de verão. Sim, a vida pode ser injusta. Como eu estava feliz em sentir seu calor, lamentando, porém, sua tristeza. Queria ter transmitido um pouquinho da minha alegria que, mesmo um pouco triste às vezes, costuma ter uma espécie de contentamento estranho.

Naquele dia, ao voltar para casa, depois de olhar você me deixar dentro do ônibus, tive a certeza sobre a sua morte. Era fim de tarde e você olhava em direção às montanhas, meio disperso. Estava tão bonito. Conversei sobre isso com o Tadzio e ele me disse que eu sempre tinha esse sentimento quando o via. Dei de ombros. Ele estava certo. Desde quando eu tinha 10 anos, Vânia dizia que você fez um “pacto” – com quem não sei – de que viveria mais algum tempo para me ver crescer. Era para você ter morrido quando eu era criança, segunda a teoria cruel daquela mulher. Daí então, eu tinha muito medo de perdê-lo. Até na vida adulta, me via virando e me revirando na cama, insone, ao pensar o que seria da vida sem você por perto. Como ficaria a Vânia? Morando fora do Rio de Janeiro, qual sentido seria ir para minha cidade? Eu não escutaria mais sua voz? Mais grave, como eu viveria sem você, mesmo com nossos diálogos curtos?       

Dois dias depois, recebi uma mensagem de Vânia com notícias sobre seu AVC. A gente sempre aposta na vida ao esquecer que, na verdade, a morte é a regra natural. Cada segundo em que ela não nos alcança, é uma vitória, ao menos para os que gostam de viver. Mas tinha certeza que você já estava de partida. Eu morava à época em Brasília, comprei passagens, arrumei minha mala e fui o ver no CTI. Eu sussurrava em seu ouvido:

- Vai embora, pai. Não precisa ficar aqui sofrendo. Você já viveu o que já era para ter sido.

Sonhava que você se tornasse o Jokerman do Dylan e encontrasse sua liberdade; arrancasse finalmente a tristeza clandestina de seu coração; fosse pleno. Sabia que todos estes passos poderiam ser dados em vida e como havia rezado para isso. Mas você nunca o faria. Não era do seu feitio. Uma promessa profunda havia sido feita entre você e Vânia, só prefiro não entrar nestes meandros de dor aqui. Ainda sangram em mim.

Alguns dias já no RJ, sozinha, recebi a notícia de que seu AVC ou era fatal ou você se tornaria um eterno vegetal. Os médicos disseram não haver retorno. Dessa vez gritei.

- Vai embora, pai!

Dei a notícia à Vânia que, para minha surpresa, ficou calma. Alguns dias depois minhas irmãs chegaram e seguraram as pontas. Eu estava exausta, precisava voltar à minha rotina, esperando, todavia, a qualquer momento, a notícia da sua morte. E, sem grandes delongas, chegou no dia 06 de dezembro de 2016. Ajeitei tudo burocrático na minha vida, compramos as passagens em direção ao Rio de Janeiro e fomos Tádzio e eu ao enterro. Só agradecia pela sua generosidade de ter esperado todas as mulheres da sua vida estarem por perto para vê-lo partir.

Na verdade, o pergunto, você estava lá no enterro? Sempre penso que, em caso afirmativo, você não pararia de rir. Ao menos era caixão fechado. Sem o morto à vista. Havia, contudo, uma multidão num lugar quente, fedendo a flor de defunto, com umas senhorinhas que apareceram do nada para rezar alguma coisa. Na parte de elas falarem seu nome, já que a oração era “pessoal”, o chamavam de qualquer fulano, menos de Victor César, seu nome. Então, a madrinha Dininha, emputecida, as corrigia. Na primeira vez, me contive, mas, já na terceira vez com o mesmo erro, lá estava eu com um ataque de risos sem limites, achando tudo aquilo surreal. Só o imaginava peladão, fumando um cigarrinho, finalmente leve, vendo um pessoal prestar uma homenagem muito distante do que você merecia. Pelo menos torcia para que estivesse livre desta forma. Depois me dei conta de que as pessoas achariam eu ser daquelas a demonstrar tristeza através do riso. Dane-se.

Só que não fiquei verdadeiramente infeliz com sua morte. Senti até alivio e foi duro lidar com isso, porque não é o que normalmente se experencia em situações de luto, como a de um pai. Sendo mais específica, hoje, enquanto escrevo estas páginas, sinto muitas coisas misturadas. Não nego minha indignação por você ter se omitido tanto diante das crueldades feitas pela Vânia contra mim e minhas irmãs. Seu papel não era de mero provedor, intelectual, homem sábio da família. Teria sido melhor para todos você ter se destituído desse lugar.

Por outro lado, sinto falta de te ligar. Sinto falta de ao menos 15 minutos de nossas conversas. Sinto falta de ser chamada de “batatinha”, mesmo já com quase 40 anos. Sinto falta de te visitar em casa e ver você dar um tchau tímido, com seus olhos brilhantes, com os cachorros pulando ao seu redor e sua blusa encardida branca, quase sempre esburacada. Sinto falta do seu jeito simples, da forma jovial como falava com certas pessoas. Sinto falta da firmeza quando disse, assim que eu aluguei uma quitinete aos 20 anos para morar sozinha, morrendo de medo:

- Se tivesse cabeça na sua idade, Tatá, teria feito a mesma coisa.

Sinto falta de você durante meu tratamento de leucemia, pai. Muita falta.

Nunca mais me foi permitido entrar em sua casa. Vânia buscou novos rumos longe das filhas. Ou melhor, eu, cansada, decidi dizer adeus. As relações se esgarçam, o tempo passa, as pessoas fazem suas escolhas, as coisas mudam. Só sigo fazendo a mesma oração para você todos os dias: “Jokerman dance to the nightingale tune/ Bird fly high by the light of the moon/ Oh, oh, oh, Jokerman”.

Ou pode ser esta também: que Nossa Senhora te proteja e São Jorge te guarde.

Dá na mesma!

 

Comentários