Os meandros de um rio: Notas de um transplante
Thais Lemos Duarte
“Tantas veces me mataron
Tantas veces me morí
Sin embargo estoy aqui resucitando
Gracias doy a la desgracia
Y a la mano con puñal
Porque me mató tan mal
Y seguí cantando”
Como la cigarra
María Elena Walsh
1. Uma explicação
Tive muitas dificuldades em escrever as
páginas deste blog, já tendo as revisado e as editado várias vezes. Descrevo,
além das minhas memórias infantis, aspectos de um tratamento de saúde longo,
duro, cujo fruto, entre outros, foi esgarçar determinadas relações, reforçar
outras ou gerar ambos os efeitos. Não houve muita regra.
Estava acostumada
desde a infância a colocar indivíduos e circunstâncias em caixas, o que não é
de todo ruim. Muitas vezes perguntava “fulano é do bem ou do mal?”, em um
contexto político profissional, e quase sempre me garantiam uma resposta
acertada. Os rótulos fazem parte da vida e não existiria sociedade sem eles,
como diria um sociólogo. Somos guiados por etiquetas que nos direcionam a quais
relações travar, quais locais ir, quais músicas escutar etc. etc. Só que o
“isto” ou o “aquilo” é uma falácia em determinadas circunstâncias; muitos
rótulos não conseguem abranger certas realidades. Até mesmo nas interações
ultra distorcidas, cujo ato mais promissor é dizer “adeus”, certa pessoa
envolvida pode apresentar lá suas qualidades.
Dito isso, ao contar
minha história, torna-se inviável apresentar apenas aspectos bonitos sobre quem
amo ou não. Vou acabar por expô-los para indicar o que passei. Por isso, para
além de um grande agradecimento a todos que estão por perto - e são muitas
pessoas, também peço uma espécie de desculpas. Tendo como base o meu sangue,
diante do que tenho experimentado, digo ter uma amostra significativa sobre
como as pessoas são idiossincráticas, complexas, e, por isso, estão distantes
de apresentarem uma única faceta. Taxar rótulos duros sobre elas,
categorizando-as tão só como boas ou más, heroínas ou vilãs, é reduzi-las. É
ignorar as complexidades das águas que constituem um rio.
2. A tal luz roxa
Uma confissão: admito que comecei a
escrever este texto por não ter muito o que fazer. Entre novembro e dezembro de
2022, estava confinada num quarto hospitalar de quinze metros quadrados em
Minas Gerais. Estava, à princípio, com uma desconhecida, a Tati, mas que se
tornou alguém de grande carinho com o passar do tempo. Ela estava como
cuidadora e, em breve, meu marido chegaria para ficar como meu acompanhante.
3. Siga em frente como se não houvesse amanhã
Sempre me vi como uma criança estranha, numa
família que, na superfície, parecia normal. Papai, Mamãe e duas irmãs mais
velhas. Na profundida, tenho (ou tinha sendo bem realista) uma mãe que, ao meu
ver se frustrava com a maternidade e as escolhas decorrentes. Não são poucas
por aí. Meu pai, Victor, era um sujeito relativamente pacato, matemático,
professor de universidade pública, bastante omisso, mas boa gente em geral.
Talvez, as frases que mais tenha escutado dele eram “fica quieta”, “não chame a
atenção” e “estude para passar no vestibular”. Raras foram as vezes que tomou
alguma atitude diante de abusos cometidos pela Vânia (apelidada “minha mãe”)
contra minhas irmãs e eu.
Sendo eufêmica, a adolescência foi
infernal, ainda que tivéssemos uma base material mais ou menos estável,
fôssemos moradores de um bairro de classe média de Niterói, no Rio de Janeiro,
além de ter obtido uma educação formal bastante convincente. No mais, meus pais
nunca foram bons com dinheiro e vivíamos na corda bamba todo o mês. Surgia,
então, um dos infinitos temas de chantagem, pauta constante em mais de dois
terços da minha trajetória. Afinal, as dívidas, as muitas dívidas com bancos e
agiotas, foram, segundo Vânia, fruto das fraldas compradas quando eu ainda
tinha três meses de idade, por exemplo. Roupa, comida, escola, os parcos
passeios dados, casa, tratamento de saúde, cachorro etc. etc. etc. definhavam o
orçamento familiar, culpa das três filhas tidas pelo casal por livre e
espontânea vontade de ambos.
Gritos, ameaças, xingamentos, agressões
físicas, choros maternos compulsivos, histórias da vida de Vânia sempre regadas
a muita dor a serem escutadas diariamente pelas filhas, negligência e tantas
outras coisas pouco bacanas marcaram meu desenvolvimento. Talvez, a frase que
mais tenha escutado na minha adolescência vinda dela tenha sido “Thais, me traz
um cafezinho?!!”. Ela não levantava do sofá ou da cama, locais onde passava
praticamente o dia todo, incapaz de pegar a própria bebida. Para o pedido não
se tornar cada vez mais constante e estridente, eu parava tudo o que fazia e ia
buscar o tal café que, na realidade, Vânia nem devia ter tanta vontade de
tomar. Era só para atormentar. Admito que várias vezes jorrava muitas colheres
de açúcar no líquido preto na tentativa de sei lá o que. Não tinha um plano
definido. Só queria que ela parasse de agoniar minhas irmãs e eu.
Ocorreu o contrário, porém. Já mais
velhas, em um grande surto, ela arrancou com os próprios punhos um mamoeiro do
chão do seu quintal para jogá-lo em mim e na Lívia, minha irmã mais velha.
Importante dizer que a bicha tem um metro e meio. É possível que a glicose do
tanto de açúcar usado nos inúmeros cafés tenha surtido o efeito inverso aos
meus anseios. Azar.
A forma como consegui “escapar” disso
foi desaparecer atrás dos livros e dos estudos. Num plano na aparência meio
controverso, a ideia era ser “exemplar” para nunca chamar atenção dos meus pais
como um problema, para nunca ser o centro da família, como minhas irmãs o eram.
Então, eu estudava mais de 12 horas por dia e, nas horas vagas, viajava por
qualquer romance que parava na minha mão. Enquanto a Mariana (minha irmã do
meio) e, em particular, a Lívia se tornavam alvos constantes dos imbróglios
arranjados pela Vânia, não me lembro de ter virado motivo de discussão séria.
Se eu estivesse envolvida, era porque alguma irmã estava metida no meio e eu
tentava mediar. Como erámos unidas, óbvio que isso era motivo adicional de
raiva para Vânia e era jogado contra nós.
Estava longe de ser a melhor e a mais
esperta das filhas. Nada disso. Cada uma, a seu modo, mobilizou meios para
lidar com os abusos familiares. Eu só aprendi, a muito custo emocional, a
camuflar meus passos e a usar os estudos como elemento de emancipação mínima
naquele ambiente violento. A minha formação educacional foi usada por mim mesma
como uma espécie de barganha para ter amizades, passear na rua, ir à alguma
festinha, descansar na praia e fazer qualquer outra coisa realizada por
qualquer outro adolescente “normal”. “Tadinha, estuda tanto...” Essa era a
segunda frase também escutada bastante na época.
Eu levava uma espécie de vida dupla: em
casa, o inferno; na rua, a adolescente “normal” de classe média, interessada
nas fofocas, garotos e festinhas. No limite, tinha vergonha da primeira vida,
muito desconectada da segunda. Levar pessoas para casa, expor minha vida
íntima, pensar nos cochichos dos colegas sobre a loucura de Vânia... Tudo era
motivo de vergonha, apesar de não necessariamente o sentimento ter fundamento
(não sabia de fato se falavam de minha família). Forjar para fora o típico de
dentro, de casa, era uma tarefa social a ser atingida para me sentir aceita,
pertencente a algo, mesmo que soasse falso. E era falacioso ao menos para mim.
Nunca me senti inserida de verdade em algum grupo até me desvencilhar em alguma
medida dos laços paternos, embora tivesse amigos na adolescência.
Os estudos não foram usados só para ter
liberdade, claro. Com tanta falta de grana em casa e com as afirmações
constantes de as filhas serem os prejuízos da família, prometi a mim mesma que
ganharia dinheiro desde cedo. Enfiei na cabeça ser juíza criminal sabe-se lá
por que. Com este objetivo bem traçado, comecei a cumprir uma rotina que defino
hoje como quase militar. Aos meus onze anos, acordava às seis da manhã, fazia
exercícios físicos, tomava café, tomava banho, via os jornais matinais,
estudava e ia para a escola. Na volta, ficava um pouco com minhas irmãs.
No ensino médio, tudo se acirrou com a
proximidade do vestibular. Eu tinha de passar numa universidade pública para
não depender tanto dos meus pais. Caso eu passasse em algum local privado,
seria inviável estudar. Não haveria dinheiro, além de eu me tornar possível
foco da família, minha fonte de pânico. Tinha de dar meu jeito.
Como a vida em casa estava cada vez
mais difícil, piorando aos 17 anos, eu acordava de madrugada para estudar, sob
a tutela da Mariana, com quem dividia o quarto. Ela vigiava se meus pais viam a
luz acesa. Quando amanhecia, eu voltava a dormir como se nada fosse e não se
falava mais na história. Nas vésperas das provas de vestibular, optei por
concorrer a Direito na maioria das universidades públicas fluminenses. Sem um
motivo muito claro, porém, talvez por querer ser uma juíza com “consciência
social”, mesmo não sabendo muito o significado disso, me inscrevi em Ciências
Sociais.
As datas das provas chegando, clima de
formatura no colégio, amigos chorosos em despedida e as coisas em casa em
erupção. As brigas se tornaram diárias e, ao final, depois de anos, meu pai
decidiu pela separação. A opção, pela primeira vez, veio dele. Os dois já
haviam rompido inúmeras vezes, mas sempre por iniciativa dela. Daquela vez foi
diferente e não à toa as consequências foram bem imprevisíveis.
Lembro ser um dia antes da prova da
UFRJ. Céu nublado, ruas sem sal, eu nervosa sem saber onde colocar as mãos,
minhas irmãs quietas sempre unidas, meus pais brigando aos gritos no quarto.
Num estalo, o silêncio rondou a casa. Meu pai nos explicou um pouco a situação,
disse para levarmos um dia “normal”, pediria uma pizza e nos daria dinheiro
para irmos ao cinema. Tudo ia ficar bem. ALÍVIO.
Depois do filme, de volta para casa já
no início da noite, tudo quieto. Meu pai estava preocupado, porque Vânia seguia
no quarto desde o fim da briga sem soltar um pio. Batemos na porta e nada. Esmurramos
a porta e nada. Decidimos arrombar a porta. Uma, duas, três tentativas. Fiquei
atônita com a madeira rachada, com as farpas à mostra. No ambiente invadido,
uma mulher grande, redonda, com a barriga para cima, ronronando na cama. No ar,
um perfume de irritar qualquer um sem olfato, mais uma música tocada
repetidamente. “Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica”. Uma roupa
pendurada no cabide. “Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando”. Cartelas
de remédios espalhadas por todas as partes do quarto. “Coisa que gosto é poder
partir sem ter planos”. Suicídio ou, ao menos, uma tentativa. “Melhor ainda é
poder voltar quando quero”. Nada de carta.
Até hoje não consigo escutar essa
música sem um arrepio, apesar de o Milton Nascimento fazer parte de minha vida
de várias formas.
Quatro pessoas, mais o zelador do
prédio, tiveram de levar Vânia do cenário montado ao hospital. Ela era técnica
de enfermagem e sabia direitinho como se matar. Até eu, socióloga, aprendi ser
muito difícil dar cabo da vida só com remédios, ainda mais sabendo sobre a
quantidade de pílulas que ela estava acostumada a tomar diariamente. De todo
modo, naquele momento, achei que minha mãe estivesse morta e só conseguia
pensar no seu egoísmo de ter feito seu ato antes de um dia tão importante para
mim. Ou o egoísmo era meu?
As enfermeiras agiram rápido e uma delas disse ter passado por coisa parecida: “depressão”. Falou ter se mantido viva, porque a “filha a salvou”. Então, eu não fui capaz de “salvar” minha mãe? A culpa era minha? Em meio a interrogações, notei colocarem uma sonda uretral em Vânia e vi um líquido amarelo sair do seu corpo. Minha mãe morreu. Ela nunca mais seria minha mãe, independente do resultado de tudo aquilo. Era dezembro de 2003, mês que meu pai também morreu de AVC anos mais tarde, em 2016. Ambos se foram para mim em datas próximas, um dia depois do outro. Virei órfã. Já era antes sem saber, mas o fato começou a se concretizar na minha cabeça naquele momento.
Brigas, separação, loucura, delírios,
tentativa de suicídio, coma... Tudo deveria ser deixado de lado para eu não
perder meu foco? Qual era meu foco? Qual meu papel no teatro armado? Meu pai
talvez tenha me dito uma das coisas mais potentes na vida, saindo de repente de
seus anos de silêncio em relação às filhas:
- Tatá, apoio qualquer decisão sua, mas
se eu pudesse escolher por você, faria a prova.
Fiz, então, uma espécie de cálculo. Eu
já odeio a Vânia por tudo o que ela nos fez passar, culminando com o dia de
hoje. Se eu não prestar a prova de vestibular, além da decepção com ela, vou
somar a mim a frustração. Mesmo que eu tire zero, eu preciso tentar. A raiva
contra ela já está derramada, mas eu preciso me proteger do lugar onde posso me
colocar, por mais duro que pareça.
Na manhã seguinte, sonâmbula, fui fazer
a prova. Delta é igual a b dois menos quatro a c? Bhaskara? Letras com números?
Eu não tinha ideia do que estava fazendo. Só olhava a janela onde estava
sentada ao lado e pensava em EXAUSTÃO. Só queria que acabasse. Mais cinco
minutos e pronto. Escreve qualquer coisa, Thais. Por muito menos as pessoas
faltam as provas. Sua mãe está em coma por tentativa de suicídio depois de anos
de violência. Já é o seu limite. Seu futuro, se é possível existir significado
para isso, não depende disso. Tanto esforço para seguir em frente para onde?
Acabei a prova, Vânia acordou dois dias depois pedindo um cigarro, a vida em casa continuou igual, nada de separação, passei no vestibular em Direito e em Ciências Sociais em universidades públicas. Seis meses depois cursando as duas faculdades, tomei a decisão de que meu último desejo era atuar como juíza criminal. Fui me enveredar pela Sociologia, seguir vida acadêmica e, ao mesmo tempo, trabalhar com políticas públicas. Tracei um plano bem diferente do desenhado antes de forma tão rígida, mas que, em simultâneo, tinha me “salvado”.
4, Meandros
A vida não é só desgraça. Não fui
marcada somente por mãe negligente potencialmente suicida, pai omisso e câncer.
Gosto de imaginar minha trajetória como um rio cheio de meandros. Algumas
curvas parecem retornar a algo, mas, num curso imprevisível, jorram o fluxo de
água para outra direção. Algumas ondas se formam e vão para as margens. Em
simultâneo, diferentes águas se beijam com violência ou se abraçam com doçura.
Depende do clima. Depende da época. Depende de mim, em alguma medida.
Cresci com o
aprendizado de que um plano rígido me libertaria da violência familiar.
Funcionou. Funcionou bem demais. O difícil foi viver o contrário, a relaxar e a
fluir junto com as curvas que aparecem. Se deixar preguiçosamente levar, sem
buscar o controle absoluto sobre todas as coisas. Foram muitos passos para isso
e ainda me sinto em processo de formação, sobretudo, durante o tratamento de
leucemia. “Coragem”, como disse Drummond, talvez seja a palavra de maior peso
para mim do que “controle”. Todos os dias peço um pouco dela para me manter
viva e sã.
Fui muito feliz em
vários momentos. Em outros, até estava meio triste, mas, ao mesmo tempo,
guardava alguma dose de felicidade, aquela “clandestina”, como o disse Clarice
Lispector. Dizem por aí, de um limão pode sair uma limonada. Nesta tônica,
assim que a Lívia conseguiu um trabalho com um salário um pouco mais digno,
quando eu vivia meus 20 anos, minhas irmãs e eu saímos em busca de um
apartamento no Rio de Janeiro para vivermos juntas, longe dos nossos pais. Logo
em seguida, Mariana começou a ganhar seu próprio dinheiro e, após, comecei a me
manter também. Vivemos três anos assim. Cada parede da casa tinha uma cor
pintada por nós mesmas. Adotamos um cachorro, a Ludmila, que ficaria sob os
meus cuidados por quase 16 anos e seria parceira pelas minhas andanças pelo
Brasil. Minhas irmãs e eu cuidamos uma da outra. Um cuidado nunca experimentado
antes. Tudo era novo.
Depois, nos
separamos, ao passo que meus pais ganhavam papel cada vez mais reduzido em
nossas rotinas. Lívia foi para Espanha; Mariana para São Paulo e, anos mais
tarde, para os Estados Unidos; eu fiquei no Rio de Janeiro. Enchia a boca para
dizer ser ali minha cidade definitiva. Não conseguia ver paisagem para além do
Cristo Redentor. Era jovem, tinha um trabalho razoável de pesquisadora, amigos,
saúde e, aos 26 anos, conheci o Tádzio.
Um dia, totalmente
desavisada, numa aula do doutorado em Ciências Sociais, vi a imagem de um homem
enorme atravessar meus olhos. Soube na hora ter surgido um novo afluente em meu
rio. Nunca quis casar, assombrada com meu histórico familiar bastante violento.
Tampouco já tinha pensado em filhos. Não gostava nem mesmo de menstruar. Morava
sozinha desde os meus 20 anos, num espaço só meu, na completa autonomia. Tinha
relativo prestígio profissional, considerando minha idade e meu grau acadêmico.
Terminei meu
doutorado, me inseria cada vez mais como militante de Direitos Humanos, com
olhar em prisões e em prevenção à tortura. O Tádzio, porém, fez muita coisa mudar.
Consegui aprender em alguma medida que a vida é muitas coisas além de trabalho
e, por isso, fui permitindo que ele entrasse em mim. Em menos de seis meses,
fomos morar juntos e éramos felizes no geral. Como o amava. Como o queria por
perto durante todos esses anos. Quantas saudades sentia quando tínhamos de
viver à distância por determinadas circunstâncias. “A lua girava”, como diria
Milton Nascimento, quando o encontrava e voltávamos à rotina juntos. Eu podia
sentir seu cheiro, ouvir seus ruídos decifráveis apenas por dicionários
especializados, criados por mim. Formalizamos nossa união no papel oito anos
depois de termos nos encontrado, mas o dia pareceu uma mera burocracia,
pensando no tanto já passado juntos.
- É a casa mais
bonita que já morei, Tádzio repetia em vários dos apartamentos onde vivemos.
Eu adoro previsões
sobre o futuro. Assim, em visita a um pai de santo em Salvador, escutei que
deveria me preparar para uma “vida fantástica”. Tádzio e eu moraríamos em
várias cidades, conheceríamos muitas pessoas e teríamos dois filhos. Acostumada
a planos simples, mas que aprendi serem às vezes eficazes, acreditei. Rio de
Janeiro, Brasília, São Luís do Maranhão, Viçosa em Minas Gerais, Belo Horizonte
foram alguns dos lugares onde vivemos durante mais de dez anos juntos. Caímos
no interior mineiro, porque Tádzio se tornou professor universitário depois de
tempos de tentativa. Foi suado, sofremos pra burro em cada reprovação nos
concursos públicos, mas finalmente o que parecia direcionar o fluxo das águas em
um bom sentido aconteceu. Era o estado onde queríamos morar para ficarmos mais
perto da família dele.
Eu que, na época,
morava em Brasília e estava com o bolso cheio de dinheiro em um trabalho nada
ruim, não pensei duas vezes e pedi demissão. Ia viver por um tempo com minha
bolsa de pós-doutorado obtida pela universidade de MG e tentaria qualquer outra
coisa que surgisse no caminho. Interior, vida nova. Doce de leite Viçosa, casa
grande, planos de gravidez. A pandemia de Covid-19 nos rondava em 2020 e o governo
Bolsonaro era fatal. Tudo azedava um pouco o casamento, mas eu não duvidava da
minha escolha, além de Tádzio parecer relativamente feliz com a nova vida e ter
se encontrado em treinos intensos de boxe. Fui à ginecologista, comprei
confiante as pílulas de ácido fólico, fiz exames atestando estar com o corpo
saudável e sem qualquer dificuldade surgiu um bebê em minha barriga.
Veio, então, o sangue
escapando da vagina. A partir daí esse fluido se tornou cerne na minha vida. O
que nutre o corpo pode também afirmar a sua fragilidade. Algo não andava bem e,
após um ultrassom sem qualquer barulho de coração do feto, a médica pediu para
eu literalmente rezar para não ter um bebê morto em mim. Depois da aflição,
confirmado o aborto, Tádzio aéreo mencionou de forma meio aleatória ir ao
barbeiro.
- Não há mais nada a
fazer, disse.
Eu, sozinha, combinei
com a médica sobre a curetagem.
- Pode ser hoje à
noite ao hospital, me falou aquela mulher em tom entre o indiferente e o
sanguinário.
- Não, não tenho cabeça
para fazer isso hoje. Preciso assimilar o que aconteceu. Faço a curetagem na
semana que vem, disse.
Ainda aguardei
abalada os tais sete dias, esperando o corpo “expelir” o feto, sem saber o
significado disso. Só entendi que em minhas entranhas estava retido meu bebê na
tentativa de preencher o que já era morte. E ele não saiu, se manteve em mim.
Logo, numa noite de novembro, preferi ir sozinha ao hospital para a raspagem do
útero. Não queria o Tádzio por perto, porque decidi ser aquele momento meu e do
meu bebê, cuja vida não vingou. Queria senti-lo como algo meu, mesmo que no
“adeus”.
Sempre pragmática, a
médica disse que faria um procedimento superficial para eu seguir com a
possibilidade de ter outras gravidezes. Simples assim: em três meses poderia voltar
a tentar. Quase lógico, claro! Mal sabia ela que era feita a raspagem da minha
alma. Vazia. Oca. A alma saída de mim com todo aquele sangue espargido da
vagina durante dias após a curetagem. As fisgadas no útero intermitentes me
lembravam de forma sistemática de que eu não seria mãe naquele momento.
- Tatá, sofrer por
algo que não foi? Nem era um bebê, me dizia Tádzio, na tentativa de afogar sua
tristeza.
Não havia consolo
para nós. Mergulhei durante meses numa ria de mágoa. Colocava o tênis de corrida
e saía varada pelo campus da universidade local para perder meu fôlego. Evitava
falar com as pessoas, mal tocava no assunto. Não queria contato com nada.
Amortecia qualquer coisa com trabalho e estudo. Eu pegava todas as opções de
consultoria possíveis e lia todos os livros que me caíam na mão. Se a fórmula
para me salvar de alguns abusos familiares tinha funcionado anos antes assim,
poderia ser eficaz no que eu chamava à época de calvário pessoal. O casamento
degringolava. Tádzio me pressionava para engravidar de novo, dizendo que não
queria mais conversar sobre o aborto.
- Agora é sexo todo
dia, falava compulsivamente durante uma briga.
No mesmo período, a
minha irmã Mariana engravidou. Uma gravidez sadia, tranquila, sem sangue à
mostra. A cada ultrassom enviado por mensagem, a cada foto indicando a barriga
em protuberância, eu chorava. Tádzio, terno, me perguntava se eu ficaria assim
todas as vezes que eu recebesse tais notícias. Eu só conseguia pensar que as
pessoas falam da vida, nunca do aborto, nunca da raspagem da alma causada pelo
feto morto. Afinal, não há tanta criança por aí? Afinal, eu ainda não tinha
útero, como me disseram?
Logo entendi que o
problema não era a gravidez da Mariana, mas o fato de eu não ter mantido a
minha. Não deveria punir minha irmã por algo que a deixava tão feliz e,
estranhamente, naquele momento, me emocionava também. A Janaína ia nascer e em
seguida, quando a visse pela primeira vez, a amaria muito. Mas eu penalizava a
mim.
Vânia, cuja presença
era bastante intermitente em minha vida há anos, durante uma ligação de tom
cruel, disse que eu era percebida por seus “vizinhos” como o fracasso das
filhas. Não vivia fora do Brasil como minhas irmãs, em que uma estava em
Barcelona e outra em Nova Iorque, e fui me enfiar no interior de Minas Gerais
por conta de marido. Eu, dita tão “feminista”, levava uma vida “tradicional”,
me falou.
- E quando Tádzio e
você fariam o gol e teriam um filho?
Ignorei as bobagens
elitistas ditas de por quem mal sabe Geografia, mas aderi a roupagem do fracasso.
Eu me sentia uma mulher inútil, cujo papel não foi bem desempenhado. Ao mesmo
tempo, só via mulheres grávidas ou com bebês ao meu redor. Todas tinham
auferido o “seu lugar”. O mais grave para mim, apesar das incisivas do Tádzio,
era o fato de eu não querer engravidar de novo tão rápido. Viver se tornou uma
agonia de uma hora para outra. Eu parecia em câmera lenta. Tudo era rápido e eu
devagar. Só meu coração saltitava em pânico dentro de mim, lembrando o empenho
em me manter viva.
Eu precisava entender
o que se passava comigo para ter algum plano para minha sobrevivência.
Depressão? Mas eu fazia esportes, dormia oito horas por noite, não fumava, mal
bebia. Problema de saúde? Mas eu nunca tinha trepado sem camisinha com
desconhecidos, era vacinada, comia verduras orgânicas, me alimentava em
horários regulares, nem tomava remédio para dor de cabeça para evitar
intoxicações.
Depois de muito
investigar, descobrimos que eram os primeiros sintomas de uma leucemia. Os
afluentes do rio jorram águas não tão doces às vezes. Muito raro, a vida é um
rio em linha reta regado tão só pela felicidade ou pela tristeza.
De início, fui ao cardiologista.
Afinal, meu pai tinha um largo histórico de problemas cardíacos e havia morrido
anos antes de AVC. Fiz uma bateria de exames e soube estar com meu coração
muito bem, obrigada. Meu problema era anemia e, por isso, precisava de um
hematologista.
Não
é tarefa fácil buscar médicos especializados no interior. Achei uma que atendia
uma vez ao mês em Viçosa e, ao vê-la, ela me disse para não me preocupar.
- Você só precisa comer
verduras e ser feliz.
A
parte da felicidade estava difícil. O casamento se encontrava bem desgastado
pelo estresse da pandemia e do aborto. Num dado dia, fiquei meio obcecada à
procura de apartamentos para alugar em Belo Horizonte, enquanto Tádzio parecia
amargo, mais fechado que nunca. Eu me sentia adoecer, sem saber mais se físico
ou mentalmente. Precisava tomar alguma atitude. Falei com ele não dar mais,
tudo estava muito difícil, algo estava errado comigo. Eu não era assim, sempre
tive muita energia, devia ser tristeza. Bravo, ele subiu as escadas de casa e
disse para eu ir embora, então. Não deu nem cinco minutos, porém, ele desceu e
falou que eu não estava doente, nos amávamos e ficaríamos juntos. Eu não tinha
vontade de ir embora, eu o queria.
Investimos,
então, na parte de eu ficar saudável. Fiz uma lista de alimentos que, em
teoria, reverteriam meu quadro de anemia. O Tádzio nunca assou tanto coração de
galinha na churrasqueira. Nunca comi tanta beterraba crua. Só que a letargia
seguia tomando conta de mim. Devia estar deprimida, porque sempre tive o corpo
saudável, pensava.
Aí
veio uma febre do nada, numa semana em que Tádzio havia decidido tirar um tempo
de folga em Belo Horizonte e num dia depois do nascimento da Janaína, minha
sobrinha. Corri para um dos dois hospitais de Viçosa e não recebi qualquer
atendimento. Fui para o outro e o médico mais atencioso me passou exames
básicos. Um hemograma mostrou estar bastante anêmica, apesar de toda a comida
saudável ingerida nas últimas semanas. Mais grave, surgiram blastos no sangue,
as células cancerígenas do sangue. Tomei duas bolsas de sangue, zombando ao
dizer que viraria vampiro, sem entender o que realmente se passava.
Pedi
ao Tádzio que voltasse a Viçosa para me ajudar a ir a BH. Precisava encontrar
um hematologista de qualidade urgente, o qual não me orientaria a ser feliz
como forma de salvar minha vida. Dias depois, de mala, cachorro e cuia na
capital, vivendo na casa do sogro de improviso, a casa em Viçosa em completo
abandono, descobrimos meu diagnóstico: a tal leucemia mieloide aguda, com
reversão na caceta 3. Muito grave, com poucas chances de tratamento, a não ser
um transplante de medula óssea.
Por
mais estranho que pareça, o diagnóstico não me gerou choque. Fiquei triste,
claro. Soube que teria de mudar minha rotina por um tempo para me tratar. Teria
de trazer a vida para BH mais em definitivo. Mas o sentimento final foi Alívio.
Alívio por entender o que se passava comigo. Eu me culpava diariamente por
estar triste depois de meses após o aborto e não conseguir engravidar. Pior,
não queria ter bebê algum naquele momento, porque me sentia sem forças. Só que
o problema não era necessariamente com a minha “cabeça” ou com os meus
“quereres”. O diagnóstico me fez pensar, ao menos quando o recebi o
diagnóstico, ter um problema físico, cujo efeito era, sobretudo, no corpo. Eu
não tinha, então, de enfrentar algo difuso e impalpável, como uma depressão. Eu
precisava matar os tais blastos e fazer o transplante. Sabia que ia ficar bem.
De todo modo, já deixo em aberto aqui como confundimos o físico com outras
dores.
Avisei
primeiro a Lívia que, sem pensar muito, se prontificou para vir ao Brasil já.
Alguns dias depois, contamos a Mariana, recém parida da Janaína. Liguei para
Vânia, com quem não falava há meses, e disse estar doente. Seria bom tê-la por
perto. Precisava de uma MÃE. Ela disse que chegaria a BH no mesmo momento da
Lívia. Avisei a todos os amigos próximos, consultei minha astróloga, pedi ajuda
a minha psicóloga de mais de uma década, indiquei no trabalho que meu ritmo se
tornaria nulo nos próximos meses (e agradeço, em especial as companheiras, que
me ajudaram a segurar o rojão, pois estava envolvida em muitos projetos) e
me internei para meu primeiro ciclo de quimio.
6. As primeiras quimioterapias
Os dois primeiros ciclos de quimio
foram totalmente internadas, cada qual com mais ou menos 28 dias. A ideia era a
Lívia passar um dia comigo no hospital, revezando com o Tádzio. Na época, a
minha irmã conseguiu licença do trabalho por dois meses, vindo ao Brasil, e o
meu marido estava em esquema home office na Universidade em
razão da pandemia de Covid-19. Minha cunhada e as pessoas mais próximas também
estiveram comigo neste momento. Uma grande amiga, a Nanda, assim que soube do
diagnóstico, pegou um avião de Brasília para passar os primeiros dias no
hospital comigo.
Já Vânia disse ter
tido um AVC, impactada com a notícia de a filha mais nova ter câncer. Por isso,
não conseguiria estar em BH como prometido. Como minhas irmãs e eu somos
cautelosas com as histórias dela, pedimos exames e o tipo de tratamento feito,
mas nada nos foi enviado. Ela apenas mandou uma foto com um corte de cabelo
novo feito para “espairecer”.
- Dane-se, pensei.
Nada novo. Melhor ajuda quem não atrapalha.
Tudo era festa no
início. Eu queria manter a completa ignorância sobre meu tipo de leucemia, os
remédios e possíveis efeitos colaterais. Quem conversava com minha médica,
chamada aqui de médica A, eram minhas irmãs. Estava aberta a qualquer coisa,
desde que o tratamento me salvasse num prazo de seis meses, lapso enfiado na
cabeça sabe-se lá por que. Então, meu quarto de hospital estava sempre cheio.
Tádzio levava cerveja no fim de semana escondido e jogávamos palavras-cruzadas
como se estivéssemos num acampamento. Terminada a primeira sessão de quimio, eu
não sentia nada. Fazia exercícios físicos, comia coisas gostosas, brincava e
achava que seria aquilo ali. Fácil!
O corpo, porém, pode
apresentar reviravoltas inexplicáveis. O que parece forte se mostra frágil numa
pequena fração do tempo. Cabe destacar que não necessariamente os efeitos da
quimio são imediatos. À grosso modo, no meu linguajar mundano não médico, os
remédios usados para combater a leucemia têm a função de reduzir todos os
elementos normais do sangue (como plaqueta, hemoglobina e leucócito) para, em
conjunto, destruir as células cancerígenas, os blastos. Ou seja, o que é bom e
ruim vai embora juntos, gerando efeitos diversos no corpo. Em alguns momentos,
cheguei a ter 2% de leucócitos dentro do conjunto de células de defesa (que
sempre brinco mandarem abraços para as pessoas, porque os que restam são sempre
os mais simpáticos). Isso é o chamado nadir, cujo efeito, por sua vez, é
completamente imprevisível. Pode acontecer nada, mas podem vir vários do que
costumo chamar de "brindes". Tem de esperar para ver.
Nesta quimioterapia,
da noite para o dia tive uma hemorragia vaginal grave, desfalecimentos, muita
febre. Daí segui para uma primeira visita ao CTI. Sempre gosto de pensar que
temporadas neste espaço, já adiantando que esta não foi a única vez, eram
mergulhos profundos em mim. Óbvio que tudo o que senti podia ser efeito das
medicações pesadas que tomava, mas até sonhos que acreditei premonitórios tive.
Num deles, pressenti que a medula da Lívia teria 50% de compatibilidade com a
minha. Era para eu ficar tranquila, porque isso me salvaria. Na época, não
tínhamos feito os testes para ver se minhas irmãs poderiam ser doadoras.
Tinha alucinações
pelas febres muito altas, chegando a 40 graus às vezes. Em um devaneio febril,
eu disse ao Tádzio que precisava concentrar meu olhar em um ponto do quarto
para evitar com que a minha temperatura subisse ainda mais. Era como se eu
tivesse controle sobre as coisas dentro de mim. Muito tranquilo, o Tádzio disse
que não importava onde eu estava, ele sempre estaria me esperando lá fora.
Saiu, então, do quarto meio consternado.
Não poderia
deixar de contar também das dores de barriga incapazes de serem contidas pelas
inúmeras fraldas usadas por mim. Sentia vergonha por ter de apertar diversas
vezes o botão e avisar a algum técnico de enfermagem que, mais uma vez, lá
estava eu toda suja. As palavras do momento eram resignação e humildade. Não
tinha forças nem mesmo para me mexer na cama para limparem minha bunda. Tinham
de virar e de me revirar para me trocarem. As muitas mulheres que cuidaram de
mim, e alguns homens também, amorosamente me explicavam terem escolhido aquele
trabalho para ajudarem pessoas na minha situação.
Meus cabelos
começaram a cair no CTI e sentia muito nojo. Aversão dos fios esparramados pelo
travesseiro. Eu os puxava e os colocava quase que compulsivamente num saco
plástico, pedindo para rasparem tudo. Estava totalmente desprendida quanto a
isso. Dane-se o cabelo. Cabelo pra que? Não parecia ter qualquer vaidade. Não
queria saber de nada. Só queria ficar boa. Pedi para uma técnica raspar e,
chorando, ela me disse não ter coragem. Veio, então, outra, mais risonha e
pragmática, e tirou tudo. No dia seguinte, ela me trouxe um enfeite de cabeça.
- Espero que sirva.
Só que, como já disse
muitas vezes, minha praticidade tende a acabar ali na esquina. Depois de dez
dias de CTI numa cama, quando estava recriando forças nas pernas para andar,
vendo o choro mal escondido do Tádzio em me ver agarrada a uma fisioterapeuta
para me manter em pé, pude finalmente me olhar no espelho. Eu não me
reconhecia. Estava com o corpo todo marcado, com muitos machucados e cicatrizes,
careca, magra, muito magra. Eu disse ao Tádzio parecer ter recém-saído de um
campo de concentração. Muito bravo, quase gritando, ele me fez jurar para que
nunca mais dissesse aquilo. Eu obedeci, mas não deixei de pensar.
Se me senti
desfigurada na primeira internação, a segunda foi para mim ainda mais
avassaladora. Tive um lapso de descanso de 10 dias entre um ciclo e outro, o
que, medicamente falando, é o ideal, mas pessoalmente pode ser assustador. De
todo modo, as características do processo foram as mesmas do anterior.
Medicações, alguns dias sem grandes emoções no hospital, uma repentina infecção
seguida por uma infecção por uma superbactéria, ida ao CTI, médicos bem
preocupados, saída do CTI. A diferença foi ter passado o Natal na cama do
hospital, acompanhada pela Lívia. Mais uma experiência estranha para nossa
coleção.
O mais impactante desta
vez não foi a deformação física. A magreza, os machucados e o cabelo raspado já
tinham se tornado costume. Naquele momento, me estranhava a desintegração de quem
eu era, da minha identidade. Eu me reduzia a comer, mijar, cagar e dormir. Se
eu conseguisse no dia fazer essas atividades tão básicas, era uma garota de
sorte. Por isso, às vezes, acordava no meio da noite e me descrevia, dizendo
quem eu era e o que já tinha feito na vida.
- Me chamo Thais,
tenho uma casa em Viçosa, sou pesquisadora, socióloga, trabalho com direitos
humanos, sou casada com Tádzio, tenho uma cachorrinha, amo viver etc. etc.
Eu me repetia quantas
vezes fossem necessárias, porque realmente tinha esquecido de fatos objetivos
da vida, em meio a tanta dor e manipulação do meu corpo por outras pessoas. Eu
não me sentia mais dona de mim, pois eu havia me tornado pública. Nem sei
quantas pessoas já me viram pelada. Não me importava mais. Me tocavam, me
moviam, me limpavam, tiravam meu sangue para exames. Tudo sem restrições.
Afinal, esse era o tratamento.
Ao pegar emprestado
um termo sociológico, vivenciava uma espécie de “mortificação do eu” descrito
por Goffman, a que se é submetido num ambiente de privação de liberdade. Eu
tinha perdido o direito de ir e vir, porque estava vulnerável o suficiente para
não conseguir levantar da cama, dar às costas ao hospital e ir embora. E todos
os dias era “Thaizinha” aqui, “lindinha” ali, “vamos comer a comidinha?”, “como
passou a noite, querida?”, “como está seu coco?”, “o xixizinho está normal?”. O
afeto excessivo, forjado no cuidado de saúde, pode ser ultra sufocante.
Não que eu quisesse
ser tratada com brutalidade, ao contrário. É inegável, porém, haver uma
infantilização do paciente. Em particular, em tratamentos longos, em que o fio
que o liga a sua vida “em liberdade” se esmorece com o passar dos dias. Sem
mencionar que tudo se tornava igual. Tudo parecia ser uma grande massa amorfa
em que você, seus familiares, seus médicos, seus enfermeiros não se distinguem
uns dos outros. Numa madrugada, quando a Lívia estava comigo como acompanhante,
ela perguntou se eu queria conversar. Na cabeça dela eu estava sofrendo por
algum motivo, o que fazia todo o sentido dado o contexto. Eu, de forma muito
brusca, disse NÃO, porque aquele era o único momento no qual podia estar
sozinha, em silêncio, sem qualquer interferência. “Por favor, me deixe em paz.”
Ela ficou puta, mas respeitou.
Saí do hospital pouco
antes do Ano Novo de 2021 para 2022. Eu não estava bem. Meu corpo formigava
todo. Era como se pequenas agulhas estivessem entrando em mim. Ainda não queria
ir para casa, no caso, para a casa no meu sogro.
- Você está com
síndrome do pânico. Tome duas gotas de clorazepan, dizia a médica A, apesar de
eu contestá-la com muito afinco.
Consultei minha
psicóloga e fui a um acupunturista. Minha analista, inclusive, ligou para a
médica A e tentou convencê-la de que eu precisava de um diagnóstico mais
preciso. Para além disso, dentro de mim, apesar de não ter nenhum preconceito
com o fato de ter pânico, sabia estar muito tranquila.
No dia 31 de
dezembro, quando começaram a abrir o espumante na casa do meu sogro, eu seguia
com muita dor. Comecei, então, meio desesperada a mandar mensagem para todos os
médicos com quem tive contato na última internação. Consegui falar com um que,
atencioso, me disse estar com uma crise iônica.
- Que porra é essa?
Muito sem graça,
disse para minha família,
- Pessoal, preciso ir
ao hospital, porque estou com esse negócio aí.
Acabei com a festa de
todo mundo e, depois de exames básicos, descobri que meus níveis de magnésio
estavam muito baixos.
- É impossível ter
uma vida normal com tão pouco íon, me falou o enfermeiro.
Mandei um bom
“vai se foder” mental para quem disse estar com pânico e não acreditou em mim.
Passei a virada do
ano deitada na cama de uma emergência do hospital, sozinha, porque tinha pedido
ao Tádzio e a minha cunhada irem para casa para ao menos não perderem o jantar.
Eu ligaria quando a medicação com magnésio acabasse de correr. Minha promessa
de meia noite, com todas as emoções misturadas, era de que não passaria mais
por aquilo. Nunca mais me deixaria submeter a médicos semideuses, a identidades
transformadas subitamente pelo câncer, a afetos que se tornam controle (logo
mais chego a essa parte). Eu iria retomar a minha vida. Só que, me repetindo,
as trajetórias têm vários meandros. Várias linhas tortas precisam ser vividas,
mesmo que a gente bata o pé e diga “num guento mais”, como fiz muitas vezes.
6. O que não deve ser dito
Um dos grandes
aprendizados durante meu tratamento é haver seres altamente sensíveis, capazes
de acolherem alguém em sofrimento de um modo comovente. Sabem em geral o que
dizer, a hora de dizer e como dizer. Só que, para a infelicidade da humanidade,
indivíduos assim são raros. Raríssimos. A regra é que, por mais gentis e
generosas no dia a dia, determinadas pessoas não sabem lidar com a dor. E, por
isso, falam merda, muita merda. Não o fazem necessariamente por maldade, apesar
de haver pessoas cruéis o suficiente para isso. Só dizem asneiras pelo simples
fato de não saberem onde colocar as mãos num momento difícil. Daí surge a tal
da saia justa facilmente evitável.
Coleciono bons
exemplos de situações assim. Inclusive, profissionais de saúde experientes em
assuntos oncológicos podem ser cruéis sem querer. De início, dá uma
revoltazinha em escutar absurdos, em particular, quando chegam de uma pessoa
próxima. Por outro lado, quando reina o exercício da relativização, paira certa
leveza sobre a situação e as coisas se tornam até engraçadas. A asnice tende a
falr mais do outro do que de mim.
Vamos lá, então, para
alguns disparates. Certas respostas foram meramente mentais, porque não havia
palavras para todas as bestices ouvidas. Então, deixo em alguns casos a dúvida
sobre o que foi contestado ou não.
*
Andava careca na rua,
só com uma faixa de enfeite, e uma senhorinha me perguntou o motivo de eu ter
raspado a cabeça. Disse que não tinha a mínima vontade em gastar palavras para
responder.
*
Novamente sobre a
falta de cabelo, cujo assunto é sempre muito popular. Eu estava sentada na
frente do meu prédio olhando a rua e uma moradora com quem tenho certa simpatia
me perguntou o porquê de não a ter avisado sobre o câncer. Seu eu tivesse
feito, entraria em suas orações. Eu dei um sorriso amarelo como resposta. Daí
ela desbaratou a falar que trabalhava na área de saúde e já lidou com muitos
tipos de pessoas, inclusive, com pacientes com problemas de saúde mental.
- Era uma delícia, me
disse.
Meio atônita,
respondi que muito provavelmente eu podia ter algum probleminha ainda não
diagnosticado.
- Até acharia
razoável, me conhecendo. Mas minha questão no momento não é psíquica, é física.
Tenho câncer, minha senhora.
*
Numa época quando meu
cabelo começou a crescer, porque a medicação do momento mantinha os fios firmes
na cabeça:
- Como você está bem!
Nem parece ter câncer. Tem até cabelo. Você realmente faz quimioterapia?
- Não. Estou fingindo
tudo só para ganhar atenção e pedir licença médica remunerada.
*
Entrei no Uber com um
lenço na cabeça em direção ao hospital oncológico onde faço meu tratamento. O
motorista perguntou se eu tinha câncer.
- Sim, meu caro
senhor, disse.
Ele desatou a falar
que a filha precisava ir ao oncologista, porque andava triste, sem comer, sem
querer sair da cama e sem vontade de ver as amigas. Meio sem jeito, falando
entre os dentes, eu respondi talvez ser mais eficaz a moça ir ao psicólogo ao
invés de um médico de câncer. O tempo é precioso em nossa época, afinal. O
motorista disse que, na verdade, o oncologista serviria para mostrar haver
muitas pessoas com real motivo para sofrer e, no caso dela, não fazia sentido
apresentar sentimentos tão negativos diante da vida.
Fiquei em silêncio o
resto da viagem.
*
- Não sofra,
Thais. Afinal, há aqueles neste momento amputando uma perna.
- Eu: pior ainda
seria ser lobotomizada. Sorte a minha.
*
Na rotina do
hospital, em determinadas circunstâncias, precisava me pesar todos os dias para
ver se eu estava com retenção de líquido pela medicação.
- Hum... tantos
quilos! Parabéns! Me dá a receita para ter esse corpinho?
- Doses diárias de
citarabina, seguidas de enjoo, vômito e diarreia. Certeiro para um corpo magro,
afirmou minha língua ferina.
*
Depois de um mês enclausurada
num quarto de hospital só olhando para cara do Tádzio e da equipe de saúde, sem
qualquer privacidade, um médico falou:
- Vocês dois...
juízo, hein?
- Tá achando que aqui
vai rolar uma suruba?
O médico não sabia
para onde olhar, enquanto Tádzio baixava a cabeça esboçando uma negativa,
envergonhado. Pensei: “Dane-se, meu marido sabe a mulher que tem. Vai superar.
Além disso, o médico já me conhece o suficiente para saber que sou capaz de uma
resposta deste tipo”. Confesso que falei mesmo isso. Fico culpada até hoje
quando lembro, porque o médico é muito bonzinho, gentil e competente. Gosto de
verdade dele. Não precisava.
Lembro, ainda, que a
orientação médica é apenas transar com mais de 30.000 plaquetas por microlitro
de sangue, cuja função é coagulação. Caso contrário, uma pequena carnificina
pode acontecer.
*
- Você é forte. Você
é uma guerreira. Nem sei o que faria se eu estivesse na sua situação. No seu
lugar, acho que passaria todos os dias entregue na cama.
Nestes casos, me
recuso a responder, mas às vezes solto:
- A outra opção é
vestir o paletó de madeira.
*
- Você é tão jovem.
Que injustiça. Por que você desse jeito foi ter leucemia?
- Sei lá. A mutação
na caceta três. E coitado dos velhos. Eles têm carta branca para ter câncer?
*
- Como você está?
Imagino que sua cabeça esteja um caos, né? Do que você tem medo?”.
- De morrer, meu caro
amigo. Você já pensou sobre a morte hoje? Ela nos ronda todos os dias,
respondo.
*
- Você está sofrendo?
Você está em depressão? Imagino que você esteja com muita dor.
Fico em geral em
silêncio.
*
- Seja positiva. Não
pense negativo. Se você ficar triste a doença piora ou você vai pegar uma
infecção.
Eu em pensamento: “Ai
Deusas, me ajudem...”. Se fosse assim, todo mundo em depressão, ou mesmo,
qualquer pessoa triste, teria câncer. Dada a realidade desoladora planetária
atual, os oncologistas estariam em falta e os existentes bilionários.
*
- Não posso fazer
muita coisa para ajudar, mas você sabe poder contar comigo para o que for
necessário”.
Eu de novo: “Socorro!”
*
Digo em tom de
desabafo:
- Ah! Estou na merda,
triste pra caralho, quantos dias podres estou passando.
- Tá acabando, falta
só mais um pouquinho.
Há alguma bola de
cristal que preveja isso? Está uma merda mesmo e ponto final. Reconhecer o
horror faz parte do processo.
Incluo também para
mim, que certamente já disse ou sigo falando asnice à solto, que o aprendizado
é: quando não souber o que falar, fica quieto. Ofereça um ombro amigo e saiba
que o silêncio pode ser bem acolhedor. No máximo, se for sincero, solte um
“sinto muito”.
Por fim, o câncer tem
um custo social alto. De início, o costume é receber a atenção de amigos,
conhecidos e familiares. Com o tempo, pode ser que só reste uma ou outra que
verdadeiramente fica ao lado da pessoa doente, dando suporte emocional/material
necessário. Desnecessário dizer que este cenário deveria ser evitável.
7. Remissão total
Mesclado a dor, tenho de reconhecer ter
recebido muito apoio familiar. A Lívia estava no Brasil desde novembro de 2021
e permaneceu no país alguns meses, retornado de vezes depois. Já o companheiro
dela, a Mariana e meu outro cunhado, o Vinícius, chegaram em janeiro de 2022,
passaram dois meses, e depois retornaram ao final do ano. Daí pude conhecer a
pequena Janaína e seu deslumbramento delicioso com o mundo. Eu a amei à
primeira vista e me auto intitulei “madrinha”, sem direito a objeções. Além
disso, até então, tive meu marido, meu sogro e minha cunhada por perto, sem
contar as inúmeras mensagens e telefonemas da minha sogra. Ela passou três
meses no Brasil no início de 2022, deixando sua casa na Inglaterra para ficar
conosco.
Alguns amigos sumiram
e, com toda a sinceridade, que se danem. Outros ficaram próximos no início, mas
se perderam no caminho. Que também vão se ferrar. Já houve aqueles que vieram
me ver em BH ou me mandam mensagens quase diárias. Segue na cabeça a ternura da
imagem de minha amiga Silvia, que ficou comigo em casa durante um ciclo de
quimio duro, já ao final de 2022. Eu só conseguia dormir, não tinha forças.
Depois de ir comigo tomar a medicação, ela me fazia deitar no sofá, ficava
quietinha no quarto de hóspedes da minha casa e, de vez em quando, botava a
cabecinha na porta da sala para ver como estava.
Minha psicóloga
começou a me atender de graça, às vezes em qualquer horário. Era só eu mandar
uma mensagem dizendo não ir tão bem. Minha astróloga, que se tornou nos últimos
tempos uma amiga querida e que tinha também experiência de transplante, me
ajudou a trocar vivências e a me trazer esperança. Minhas companheiras pesquisadoras
da UFMG e de outras universidades assumiram vários projetos os quais eu estava
à frente ou na coordenação. Por outro lado, Vânia optou por viver a vida dela,
se mantendo distante. De vez em quando ligava, fazia perguntas meio inusitadas
sobre leucemia, as quais qualquer pessoa próxima saberia responder, e tentava
justificar sua ausência. Passados alguns meses assim, eu disse que preferia não
manter contato e que ela “me deixasse em paz”.
- Não me procure
mais, disse.
- Já te dei a vida e
não preciso fazer mais nada por você, Vânia encerrou a conversa. Tive de me
conter para dizer “me deu a vida, mas com uma medula de bosta, hein”.
Enfim, fico
emocionada em pensar na quantidade de gente ao meu lado e que verdadeiramente
me dá afeto. Eu tive a sorte de sentir amor em meio ao horror. Não conseguiria
passar por um câncer sozinha. Foi nesta toada que descobri que os dois
primeiros ciclos de quimio me fizeram entrar em remissão total. Estávamos
minhas irmãs, cunhados, sobrinha, família do Tádzio e ele num apartamento
grande, alugado para descansarmos todos juntos depois da segunda internação.
Numa manhã, recebi uma mensagem da médica A dizendo que o resultado do último
mielograma, feito antes da alta hospitalar, atestava a remissão total. Estava
livre dos blastos no meu sangue. Meu corpo estava são. Eu poderia finalmente
fazer o transplante de medula óssea. Meu plano de que aquele inferno duraria no
máximo uns seis meses se concretizava.
Mal pude ficar em pé
quando recebi a notícia. Caí no chão e urrava, pensando ter passado o pior.
Tanto sofrimento estava prestes a acabar. Todo mundo da família pulou em cima
de mim, nos abraçamos e choramos muito. O ano começava bem. Não só por isso. As
atividades profissionais, meio paradas desde o diagnóstico de leucemia,
voltavam a engrenar. Fui chamada para tomar posse para um concurso feito para
professora substituta na UFMG alguns meses antes da doença, além de ser
convidada para participar de duas consultorias. Saí do trabalho anterior, no
qual estava de licença médica, e muito feliz optei por viver essas novas
experiências. Tudo parecia muito “auspicioso”, como disse minha psicóloga. Eu
tinha um plano de vida para além do câncer e de sangue.
Admito que o período
em remissão foi o mais prazeroso durante toda a merda de tempo do tratamento da
leucemia (não vou falar trajetória, empreitada ou qualquer outro eufemismo,
porque nada representa o que sinto pela doença). É uma merda e ponto final. Eu
saía com meus amigos que vieram me visitar em BH, ficava com a Mariana e a
família dela, brincava com a pequena Janaína, sentia prazer em ficar na casa do
meu sogro, que sempre me deu muito carinho, e saía com minha cunhada. Tinham
dias que, sem muito o que fazer, sentava num café qualquer e tomava um vinho só
porque podia. Nunca havia feito isso num dia normal, na “vida real”, na rotina
sem o câncer. Como era boba antes.
Logo, a ideia naquele
momento era trocar de hematologista, pois a médica A não fazia transplante no
hospital onde havia me tratado. Era uma nova fase. Uma nova corrente dava a
tônica do rio.
Enquanto preparava
meu corpo e minha mente para me submeter ao transplante, foram iniciados os
testes para ver a compatibilidade para a doação de medula entre mim e minhas
irmãs. Ficou confirmada minha “premonição” de que a Lívia era a pessoa mais
indicada, com 50% de compatibilidade. Seria feito um transplante delicado,
porque, além do meu tipo de leucemia ser grave, com altas chances de
reincidência e, logo, de morte, eu apresentava muitos anticorpos no meu corpo.
Nas palavras de uma leiga, em resumo, havia forte probabilidade de a medula
“não pegar” no transplante ou de meu corpo a rejeitar depois de um tempo. Eu
poderia não reconhecer a medula da minha irmã e, assim, parar de produzir
elementos essenciais, como hemácias, leucócitos e plaquetas. Deveriam ser
feitos, assim, diversos procedimentos para “limpar” meu sangue, retirando ao
máximo os anticorpos, para que eu melhor recepcionasse a medula da Lívia. Não
seria um transplante comum, rotineiro.
Tudo isso me foi dito
numa primeira consulta com o médico J quem, à primeira vista, não me soava nada
amigável. Todos os percentuais citados antes, aos quais parecia forçosamente
predestinada a viver, foram ditos num lapso de uma hora por ele. Sem mencionar
também os gráficos enviados alguns dias depois às minhas irmãs, indicando as
chances de eu me manter viva mesmo após o transplante. Eu saí do consultório na
certeza de que “iria para o saco”. Só conseguia pensar no poema “Pneumotórax”
de Manuel Bandeira, cujo verso diz que a “única coisa a fazer é tocar um tango
argentino”.
Na verdade, as
informações da primeira consulta não acabaram por aí. O médico J disse que não
faria o transplante sem entender o que se passava no meu fígado.
- Mas meu fígado não
vai bem, muito obrigada?
- Não, Thais, há
nódulos nele que ninguém entende muito bem o que são.
- Eu tenho certeza
absoluta que não são nada, senhor médico J. Vamos em frente.
- Não, Thais, vamos
fazer exames.
Lá se foram, então,
duas biópsias dolorosas, tomografias, ressonâncias magnéticas e mais exames de
sangue. Nada. Ou melhor, a princípio, havia uma suspeita de que as células de
leucemia, os tais blastos, se infiltraram no meu fígado, gerando metástase. Eu
seguia firme dizendo estar bem, para prosseguirmos para o transplante. Não fazia
sentido surgirem nódulos durante o processo que me levou à remissão. Não foi à
toa que, num dia, entre as muitas consultas com o médico J, com o qual
simpatizava cada vez menos, comecei a chorar meio sem limites. Na realidade, eu
gritava no consultório exigindo uma medula nova. Assustado e, hoje, admito,
cauteloso, ele me mandou para uma terceira biópsia que, muito a contragosto,
aceitei fazer.
Nos preparativos para
o procedimento, a médica que me pareceu bem experiente, fez um mero ultrassom e
disse não haver nada em meu fígado. Eu devia ter tido alguma infecção recém
curada nos ciclos de quimio, cujo efeito foi deixar cicatrizes no órgão. Não
havia nódulo algum. Pedi encarecidamente para ela ligar na hora para o médico J
e dizer as mesmas palavras. Talvez, só valesse a pena incluir um termo técnico
ou algo mais forte para garantir maior legitimidade à informação.
Solucionou-se, assim,
o problema hepático. Finalmente, começaram os procedimentos do transplante, até
mesmo porque o plano de saúde já havia aprovado todas as ações requeridas ao
procedimento. Percebo hoje que o considerado na época um “atraso”, na verdade,
era prudência. Um transplante tão delicado como o meu, com suspeita de
metástase, realmente iria pedir uma música de Gardel. O certo foi feito, mas o
tempo despendido gerou custos ao meu corpo. Sobretudo, à minha alma. Tive de
aprender às duras custas que as águas de um rio não correm mais rápido do que
pede sua própria natureza.
7. Sonhos
“Sueño con serpientes, con
serpientes de mar
Con cierto mar, ay, de serpientes sueño y
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
Lo que puedam arrebatarle al amor
Oh, la mato y aparece una mayor
Oh, con mucho más infierno en digestión”
Silvio Rodriguez
O que está em jogo no meu
tratamento? O corpo ou a alma? Ou os limites são ambíguos demais para serem
traçados? Com a certeza de ser redundante, afirmo que o incontrolável é
implacável e já não sou o que era antes. Na verdade, nem mesmo sei quem sou
após uma dose de morfina ou de metadona. A fúria da transformação pode vir do
entorpecimento que puxa a promessa de me sarar ou de cuidar da minha dor. A
realidade se mistura com a fantasia. As minhas serpentes vivem no tangível e as
represento aqui como meus sonhos. Elas não estão neles, mas as são.
De fato, já não preciso
estar mais adormecida para lidar com as minhas serpentes. Tanto elas quanto eu
estamos de olhos bem abertos. Encaramos um mundo às vezes cinza e vislumbramos
o pequeno campo físico hospitalar em que vivemos de tempos em tempos. Ainda
assim, tentamos nos situar a todo o momento. Pronto! Sabemos mais ou menos onde
estamos. Sabemos relativamente o estado em que me encontro. Sei que o que antes
eu tratava como efêmero e imaginário é, na verdade, concreto e perene.
Confesso que várias
espécies de serpentes sempre me alcançaram desde pequena. Tinha medo delas. A
que a mais me engole é aquela que me impede de me movimentar. Meu peso corporal
ganha uma carga dobrada de um instante ao outro. Perdo a potência; me rastejo como
cobra; torno-me quase inerte. Qualquer tentativa de manutenção do movimento é
desproporcionalmente invalidada pelo esforço em me posicionar, em me mexer.
Resta a mim, então, me paralisar, prostrar, porque a não reação, neste caso,
seria o agir.
Outra serpente rotineira
é estar no apartamento onde vivi na infância, sem que necessariamente o local
aparente sua forma física original. Só sei estar lá. Fecho a porta principal,
uso todas as chaves possíveis, coloco móveis como barreira. No entanto, de um
instante a outro, vejo ser todo o meu esforço em vão. Tento fechar a porta mais
uma vez e é inútil. Busco fechar a porta uma segunda vez e tento uma terceira.
Nada! Ela está lá sempre aberta, vulnerável. Qualquer um pode entrar e eu me
torno um alvo fácil.
Talvez, a serpente
mais recente seja estar em um lugar caótico, muito desordenado, tentando
encaminhar coisas, ajeitar objetos. Em particular, busco colocar roupas em uma
mala, porque, a qualquer momento, sei que vou precisar ir embora. Só que sempre
algo dá errado. A mala não abre, as roupas puem, as pessoas juntas a mim estão
interessadas em outros fatos. Eu apenas ajeito o possível e espero.
Por fim, nunca entrei em
detalhes aqui sobre minha profissão. Sempre trabalhei tanto desde cedo que
queria um espaço para pensar a vida de outras formas, para além da minha
experiência como socióloga. No entanto, destaco ser especialista em prisões,
organizações criminais e prevenção à tortura. Além de acadêmica, trabalhei em
diversas ONG, órgãos estatais e organizações internacionais com pesquisa e
políticas públicas. Já visitei muitas prisões e outros centros de privação de
liberdade pelo Brasil e no exterior para escutar e registrar violações de
direitos humanos. Pude vislumbrar (nunca vivenciar de fato até então, claro) o
que é ser uma pessoa institucionalizada, como seria o caso de um preso. E tinha
medo, muito medo, de ter uma vida tão restrita e controlada como a dela.
Creio viver cada uma
dessas situações em alguma medida. Aprendi a conviver com serpentes, apesar de
deixar claro não ser vítima de nada. Alguns medicamentos me fazem inchar de um
dia para o outro 30 kg e desaprendo a andar, mal consigo me mover. Perco o
equilíbrio corporal e mental em instantes; sinto-me rastejar com pernas cujo
peso parecem ter 100 kg cada. Como segundo aspecto, a porta do quarto de
hospital fica aberta o todo o tempo. Não tenho qualquer controle sobre quem
entra e sai. Mais grave, às vezes me sinto tão cansada, ou tão prostrada pela
medicação, que não sei se sou tocada ou movida enquanto durmo. Estou exposta. Por
fim, deixo uma mala pronta em minha casa para, em dada situação, ter de ir ao
hospital e cuidar de algo que me acomete. Estar à espreita se tornou um dos
meus motes.
Nesse mesmo sentido, como
já discuti, o hospital não é uma prisão. No entanto, pode ser considerado em
alguma medida como uma instituição totalizante, já que uma de suas
características, dependendo da doença a ser tratada, como a leucemia, é privar
de liberdade indivíduos por um período considerável. Como paciente, sou muito
questionadora, perguntadora, tento direcionar medidas junto com meus médicos e
demando coisas. A regra é usar as roupas do hospital, mas apenas uso minhas
próprias para de certo modo manter minha identidade.
Por outro lado, há coisas
impossíveis de fugir. Tenho hora e dependo dos funcionários, como técnicos,
médicos e enfermeiros, para tudo: o momento de tomar banho é regulado, a hora
da comida, o que irei comer, quando vou acordar, quando posso receber visitas,
entre outros aspectos da rotina. Claro que não vivo totalmente em uma
instituição totalizante, além de ser óbvia a incomparabilidade entre uma prisão
e um hospital em diversos sentidos. Só não nego ter me tornado uma mulher
submetida a regras rígidas, algumas bem duras.
Contudo, aprendi que as
serpentes, por mais cruéis que pareçam, ou ao menos ambíguas, podem ser minhas
aliadas. Elas me ensinaram que posso trocar de pele a cada quimioterapia, me
fortalecendo. Me renovo e o que antes eram encaradas como sonhos são realidades
não mais tão sombrias. “Eu as mato e aparece uma maior”.
7. De volta ao
começo
Fígado sem nódulos; aprovação do plano
de saúde (após muitas ligações insistentes, diga-se de passagem);
aparentemente, após um novo mielograma, eu me mantinha em remissão. Lívia, que
havia ido embora de Belo Horizonte em janeiro para a Europa, retornou ao
Brasil, no afã de finalmente doar sua medula. Ou seja, tudo certo para serem
iniciados os procedimentos para o transplante. Era abril de 2022 e não via a
hora de ter um cronograma de ações traçado.
De início, comecei a
tomar injeções que estimulariam a minha medula. A ideia era, caso ocorresse
algo inesperado durante o transplante, por exemplo, se a medula da Lívia não
“pegasse”, eu teria a minha de resgate.
No dia 25 de abril de
2022, estava agendada a coleta da minha medula para, em seguida, eu internar no
hospital e começar em definitivo as ações. Coloquei uma roupa bonita para um
dia importante. Estava nervosa. Pontual como os mineiros, me apresentei à
equipe de saúde da clínica onde faria a coleta da minha medula e me explicaram
como seria meu dia.
- Olá, vou tirar seu
sangue para uns exames iniciais. Demora um pouquinho, mas já já começa. Não se
preocupe, disse a enfermeira.
Não dei muita
importância. Tinha levado meu computador, porque estava muito preocupada em
gravar minhas aulas de Sociologia na UFMG. Era responsável por duas turmas de
graduação, ministradas no modelo híbrido: parte em sala de aula com alunos
monitores; parte com vídeos gravados por mim com o conteúdo dos cursos.
Feita a coleta de
sangue, passaram-se quase três horas e nada de começar qualquer coisa. Nem
mesmo minha concentração nas aulas da UFMG me impediu de entender haver algo
errado. Fora que dias antes um cateter foi colocado em meu peito, tendo
começado a sangrar. Ou melhor, a jorrar sangue sem parar. A enfermeira,
atônita, tentava me acalmar, dizendo que o laboratório estava com problemas. A
Lívia, minha acompanhante, e eu começamos a ficar preocupadas. Não me
surpreendeu, então, ver em meu celular uma ligação do médico J.
- Sr. Doutor, meu
cateter não para de sangrar, fora que estou horas esperando para fazerem a
coleta da minha medula.
- Thais, o cateter no
momento é o menor dos problemas.
Num tom seco:
- Você saiu de
remissão, os blastos voltaram a ser produzidos pela medula. Vamos marcar uma...
A informação girava
na minha cabeça e, na hora, aumentei o tom de voz.
- Se os blastos
voltaram foi pela demora em entenderem o que se passava com meu corpo. Não vou
responsabilizar ninguém, mas nada de marcar conversinha. Essa fase já passou. Vou
ser neste momento internada, chamem uma ambulância, arrumem meu cateter e
comecem um tratamento adequado amanhã às nove horas da manhã!
Médico, enfermeiro,
motorista de ambulância, uma anônima, minha irmã. Todos comungavam minha dor.
Lágrimas e sangue se misturavam. Eu voltava à estaca zero em segundos. O horror
vivido meses antes virou apenas experiência. Uma experiência triste.
Inconsolável, meio inconsciente, fui colocada numa maca, empurrada para a
ambulância, levada ao hospital e acomodada em um quarto. Nada parecia real.
Tádzio apareceu com uma mala cheia de roupas e me pediu para não ficar triste.
- Tudo vai ficar bem,
Tatá, mas o hospital não permite dois acompanhantes, a Lívia vai estar contigo,
volto daqui há alguns dias.
Num muxoxo, segurando
seu braço:
- Por favor, não
vai.... Deixa as regras pra lá. É o pior dia da minha vida.
Um cirurgião com ares
aristocráticos entrou no quarto e deu 18 pontos no cateter sangrento. Eu me
contorcia de dor, enquanto ele e minha irmã brigavam por um motivo que eu não
conseguia alcançar. Só queria que o dia acabasse. Só queria acordar e saber que
tudo mentira. “Por favor, me deem um remédio para dor”. Morfina... O corpo e a
alma finalmente abrandaram, enquanto escutava do cirurgião rei que eu deveria
me preparar, porque o transplante não seria “um passeio no parque”. Mesmo
drogada, levantei a cabeça da cama e consegui articular:
- Caro doutor, não
vai ser o senhor a me ensinar isso depois de tudo que passei. Você não sabe o
que passei.
Ouvi a porta bater e
dormi profundamente.
Sim. Era real. Sim.
Havia saído da remissão. Sim. Depois de um novo mielograma, tinham 12% de
blastos na medula. Sim. A citarabina, junto a outras medicações trepidantes,
voltariam a habitar meu corpo. Sim. Poderia voltar a viver todo o inferno
passado nos meses passados, com visitas ao CTI, dores alucinantes, perdas de
consciências e febres raivosas. Mais médicos surgiram neste novo meandro. Esta
parte do rio que eu atravessava era caudalosa e pressenti a necessidade de ser
mais firme. Se até então eu me deixava levar por algumas situações, supus que
precisava tomar as rédeas da situação. Não seria mais a família a negociar com
os médicos e com o plano de saúde. Cheguei a um ponto de inflexão dolorido e
cansativo, mas importante para o que estava por vir.
Se de início eu
desconfiava da nova equipe de hematologistas, que começou a me cuidar nesta
fase de tratamento, com o passar dos dias, eu relaxei. O chefe atual, que vou
chamar de médico Z, conversava quase que diariamente comigo sobre as minhas
possibilidades e propunha incluir fármacos não tradicionais a casos de leucemia
mieloide aguda. Apesar de querer estar a par de todo o tratamento, disposta a
saber suas consequências negativas e positivas, indiquei a ele não ter
competência técnica nenhuma para tomar qualquer decisão. A proposição era dele
e eu estava ali, porque apostava na equipe, que realmente parecia competente. O
paciente, nesses casos, tem a autonomia e o direito de saber sobre o tratamento
e seus efeitos, mas não deve ser encarregado de decidir por qual fármaco tomar,
por exemplo. Eu tenho conhecimentos sobre prisão e prevenção à tortura. Não sei
nada de medula e leucemia. Nem mesmo se fosse hematologista, me disporia a
adotar medidas para minha cura. Não teria o distanciamento necessário.
Outra decisão nesta
fase foi trabalhar durante o ciclo de quimio, o qual seria todo internado. Pedi
uma mesa de escritório para o hospital, no intuito de gravar minhas aulas da
UFMG e desenvolver minhas consultorias. Não aguentaria passar mais de um mês
vendo as gotinhas de remédio caírem vagarosamente em um equipo que as
carregaria ao meu sangue. Eu iria enlouquecer. Não foram poucas, então, as
reuniões em que um técnico de enfermagem aparecia como coadjuvante na câmera,
me escutando sobre pessoas desaparecidas ou adolescentes privados de liberdade.
Da mesma forma, alguns enfermeiros desistiam de mim depois de eu pedir mais
cinco minutinhos para terminar um slide importante em que
explicava “fato social”, segundo Durkheim.
Foram 45 dias de
internação. Tive só uma pequena infecção, tratável no quarto de hospital. Nada
de CTI ou grandes sustos. Acordava, pensando no que tinha de fazer de trabalho.
Mais uma vez, as “responsabilidades” me mantinham com os pés no chão, se é que
me expresso bem. Não queria ficar presa numa cama e não conseguir corrigir
provas, por exemplo. Claro que não acho razoável uma pessoa doente como eu, ou
com outra enfermidade grave, trabalhar. Ao contrário. Todos deveriam gozar do
direito à licença saúde e poderem se cuidar com dignidade. Meu ato foi fruto de
uma decisão individual que, naquele momento, sabia ser importante para mim.
Lívia ficou comigo os
primeiros dez dias da internação; Tádzio passou um mês, período em que ele
havia pedido licença na Universidade; minha sogra me acompanhou por cinco dias,
aproveitando os dias em que ainda estava no Brasil. Cada um cumpriu seu papel,
me dando apoio a seu modo. A Lívia, com sua preocupação de irmã mais velha que,
de vez em quando, me deixava ansiosa. O Tádzio fingia estar alheio ao
tratamento, se escondia nos treinos intermináveis de boxe para não surtar, mas,
ao mesmo tempo, eu sabia estar ao meu lado. “Dona” Renata, com seu olhar de
gavião e nossas longas conversas, me fez rir um bocado.
Talvez ela tenha me
dado o melhor conselho em todo o tratamento. Dois, na verdade. O primeiro era
de que eu precisava de privacidade. Ter meu próprio espaço era importante,
depois de ficar tão exposta com a rotina hospitalar. O segundo: era necessário
dormir (o que eu não fazia bem há meses) e parar de sentir dor. Era acordada o
tempo todo por enfermeiros para ser alvo de medicações e de exames, além de ser
acometida por dores geradas pela doença e pelo tratamento. Por isso, precisava
tomar algum remédio, apesar do meu trauma familiar em que psicotrópicos eram
consumidos como balas por meus pais. Disse que ia pensar no assunto e realmente
a questão se tornou fundamental nos meses futuros.
Prestes a ter alta,
como Lívia vivia num loft caro desde sua chegada em abril,
fomos procurar um local para morar juntas. Tádzio havia voltado a Viçosa mais
em definitivo, porque começara o semestre letivo presencial. A ideia era nos
vermos em suas idas a BH. Minha irmã e eu acabamos, então, num primeiro
apartamento de temporada que custava o preço de um rim e não tinha espaço
suficiente para nós duas. Passados uns quinze dias, fomos de mala, cuia e
cachorrinha, que até então estava sob os cuidados do meu sogro e de minha
cunhada, para um apartamento maior, onde cada uma de nós tínhamos um quarto e
mais espaço para circular. Era caro também, mas não esperava passar tanto tempo
nele. Acreditava que o ciclo de quimio anterior tinha me deixado em remissão e,
assim, me levaria ao transplante em uns dois meses, finalmente. Só que não.
Novamente me senti afogar pelo rio que, aos poucos, parecia conhecer tão bem.
7. Carta às irmãs
Belo Horizonte, algum dia de julho de
2022
Minhas queridas irmãs,
Talvez vocês estranhem esta mensagem, mas
decidi escrevê-la, porque acho que talvez assim eu me expresse de forma clara,
sem explosões (o que tem sido cada vez mais frequente comigo) ou palavras que
podem ser entendidas erradas.
Nossa vida nunca foi muito fácil, de modo
que termos como afeto e cuidado sempre tiveram significados ambíguos. Para
superar isso, tivemos de nos dar força para que consigamos ser quem somos hoje.
E acho que nos saímos muito bem. Tenho muito orgulho de quem nos tornamos. Até
mesmo porque, graças a isso, estamos lidando com uma situação muito difícil e
seguimos unidas. Não sei como estaria sem vocês ao meu lado.
Certamente me encontro na situação mais
desafiadora de minha vida e imagino ser igual para vocês. Da minha parte, nunca
imaginei passar por um tratamento de câncer, tampouco sabia que estava
“preparada” para isso, se é que isso seja possível. Antes do agora, vivia em
completo desaviso, dando importância para coisas sem sentido algum no momento.
Meu foco atual é me manter viva, com qualidade, fazendo coisas que gosto e
estando ao lado de pessoas que me fazem bem, como vocês.
Somado a isso, faço questão de manter a
minha autonomia. Claro que não tenho controle sobre várias coisas, como sobre
quais medicações tomar, pois deixo tal aspecto a cargo dos médicos. Também não
sei qual será o efeito dos remédios no meu corpo, além de não fazer ideia se
terei ou não uma infecção durante um ciclo de quimioterapia. Transplante? Nem
sei mais o que é essa palavra. Vivo num déjà
vu de surpresas e tudo bem. Já entendi ser esse o jogo.
Só que, para algumas coisas, creio ser
indispensável seguir meus próprios direcionamentos, como sempre fiz desde pequena.
Não quero dizer que não as quero ao meu lado e que vocês parem de me ligar, por
exemplo. Ao contrário. É muito importante tê-las comigo e digo mais uma vez não
saber se conseguiria passar por essa fase sem vocês. Mas meu espaço é muito
importante para mim. É minha garantia mínima de saúde mental num momento em que
vivo uma turbulência de emoções e imprecisões, fora problemas físicos graves.
Tenho lidado com muitas coisas e não dou
conta, ainda, de tratar das questões de vocês (razoáveis e legítimas muitas
vezes). Em alguns momentos, só quero falar do cenário político nacional, da
novela ou de nada. Não quero ficar boa parte do meu dia traduzindo sentimentos
suscitados pelo câncer. Quero a companhia de vocês como antes. Não o que vocês
entendem ser o “cuidado” que necessito neste momento.
Se eu precisar de qualquer coisa, se eu
precisar conversar, se eu precisar de ajuda com questões práticas – o que pode
acontecer no futuro, como já aconteceu há alguns meses – vocês serão as
primeiras a serem acionadas. Não tenham dúvida, já que ambas estão entre as
pessoas que mais confio. Apenas preciso garantir a minha autonomia e
privacidade num momento em que já tenho restringidas tantas outras coisas.
Amo as duas e é honra para mim tê-las como
irmãs. Vamos aproveitar este momento duro para mudar nosso entendimento sobre
“cuidado” e “afeto”. Podemos aprender juntas a dar a essas palavras
significados mais simples.
Um beijo, Thais
Os clichês ou expressões populares não
surgem à toa. Todos são em boa medida fundamentados no cotidiano, ainda que
representem preconceitos e outros imaginários sociais que podem ser controversos.
No entanto, cabe como uma luva pensar em agosto de 2022 como um mês totalmente
desgostoso para mim, em que várias situações cruéis vieram à tona. Sou tinhosa
e gosto de dizer outro bordão: “arrio, mas não caio”. Só que neste período
admito quase não ter dado conta. Quase pedi licença para dizer estar farta e pular
fora sabe-se lá para onde.
De início, Lívia e eu fomos a uma consulta
médica em que nos seria dito o resultado do último ciclo de quimioterapia,
aquele em que fiquei internada 45 dias.
- Thais, você está com 12% de blastos”,
disse o médico Z.
- Então, quer dizer que mantive a doença
como estava, independente das medicações que tomei no hospital?
Com uma afirmativa, me foi proposto mais um
novo tipo de tratamento, com novos remédios, com novos efeitos colaterais, mas
que, ao menos, eu não precisaria internar. Seria feito de modo ambulatorial. Ou
seja, eu iria durante sete dias corridos à uma clínica, dentro de um ciclo de
28 dias, para tomar injeções, além de ingerir medicações em casa. A ideia inicial
era fazer ao menos dois ciclos nestes moldes, constituindo uma proposta pouco
tradicional, ainda não consolidada na medicina para pessoas com leucemia
mieloide aguda. Por outro lado, o tratamento proposto tinha apresentado
resultado razoável em pacientes em outros países, segundo o médico Z.
Sem pestanejar, aceitei, apesar da
frustração de manter os 12% de blastos.
- É preciso ter esperança, já que as
coisas que te digo são baseadas na ciência e, para além disso, na minha
percepção sobre você. E você está visivelmente bem, disse o médico Z.
Segui consternada.
- Você acredita em Deus?, ele perguntou
meio zombeteiro, uma de suas características marcantes, que me agrada bastante.
- Com 40 graus de febre acredito em
vários, respondi.
- Você acredita no inferno?
- Já estive em várias prisões, modelos
ideais disso, falei.
- Você acredita no Diabo?
- Minha mãe, Seu doutor.
Impossível não ter esboçado um sorriso
após este diálogo. Raciocinei que, ao menos, eu pararia de comer comida de
hospital por um tempo e poderia dormir de noite sem interrupções da equipe de
enfermagem para exames ou medicações. No entanto, saindo da consulta, chorei,
chorei muito, ao saber a ineficácia da quimio anterior. Sentia não haver muita
luz no fim do túnel. O transplante, ou qualquer procedimento que me curasse em
definitivo, parecia algo quase mítico naquele estágio.
Diante deste contexto, creio que o ponto
principal desta fase se refere à autonomia. Finalmente eu sairia do olhar de
uma equipe técnica hospitalar, responsável por ministrar medicações entre
outros procedimentos de saúde, de forma que meu tratamento em parte estava em
“minhas mãos”. No entanto, não queria estar sob o controle de apenas disso,
apesar de já ser muito. Eu me sentia forte o suficiente para me manter sozinha,
ter minha casa e ganhar de novo minha privacidade. E precisava muito disso; necessitava
retomar minha identidade que, em minha visão, há tempos havia perdido. Já não
sabia qual era natureza das águas que banhavam meu rio.
Um primeiro movimento para isso se referiu
ao retorno da Lívia para casa. Minha irmã mais velha, de modo muito legítimo,
estava bastante preocupada com meu tratamento. Em certos momentos, ela me
tratava de uma forma diferente do relacionamento que tínhamos antes da leucemia,
muito atenta a possíveis efeitos colaterais dos remédios e preocupada com
possíveis infecções. Conversamos sobre isso muitas vezes, sobretudo, dialogamos
que a forma como eu costumo demonstrar meus sentimentos é distinto da maneira
como ela o faz, muito mais afetuosa e amorosa. Em determinados contextos, como
o de um tratamento de câncer, essa diferença pode gerar algum nível de
desconexão.
Ainda sobre este tema, recebi de uma boa
amiga um conselho importante para a vida.
- Thais, na sua situação, você tem todo o
direito de ser ingrata. Amor não pode se confundir com controle.
Pensei muito nessas frases, em especial,
porque muitas pessoas acreditam que precisam agir de uma maneira para ajudar
alguém numa situação de vulnerabilidade. Só que tal forma nem sempre condiz com
os desejos e a autonomia da pessoa doente. E dizer “não, não é isso que eu
quero”, algo que pode ser mais ou menos simples na vida ordinária, se transforma
em um grande desafio. Afinal, aquele que nos ajuda o faz à princípio por amor,
fora outros sentimentos complexos os quais acabam por envolver relações de
amizade ou de família. De fato, escrevo esse ponto não por ser uma grande
especialista no tema. Ao contrário. Não foram poucas as vezes em que buscava
minha autonomia de modo desastrado, gritando, chorando e, ao final, me sentindo
um monstro por magoar quem mais amo; quem está mais por perto em um momento tão
delicado.
Neste turbilhão, tive a compreensão de que
o tratamento ambulatorial duraria muito mais tempo do que o previsto. Não
seriam apenas dois meses. Diante disso, para onde iria após o transplante? Há
quase um ano pulava de galho em galho. Sonhava quase todas as noites em fazer
uma mala para ir sabe-se lá para onde. Por muito tempo minhas coisas ficaram
numa caixa na casa do meu sogro. O local onde estava era caro demais para meu
orçamento. Aluguei, então, um apartamento a longo prazo. Visitei apenas dois
locais razoáveis buscados na internet e,
no mesmo dia, sem qualquer burocracia e sem pensar demais, assinei o contrato
de locação de um. O lugar era mobiliado, parecendo um cenário de Chapolin
Colorado, mas daria meu jeito. Seria o meu lugar em BH.
Se eu procurava águas potentes por um
lado, demandando autonomia, por outro, meu casamento vivia uma seca. Após o mês
no hospital, Tádzio retornou à Viçosa para dar suas aulas, seguido de uma
viagem de férias e outra a trabalho. Tudo o que eu vivia passava relativamente distante
dele, e vice-versa, como se nossos rios mal se cruzassem. Eu me magoava e, em
meio a tantos cruzamentos de pessoas e sentimentos, optei pela separação.
Contudo, a decisão de deixar um casamento de mais de uma década em meio a um
tratamento de câncer teve seu custo.
Eu fiquei muito triste. Uma tristeza
rascante, que me revirou ao avesso. Eu definhava com o tratamento, cujos
efeitos já começavam a surgir, com a doença e com o término de uma união que
tanto tinha apostado. Eu amava o Tádzio. Sem querer entrar em meandros, sabia
que ele estava amedrontado com os efeitos da leucemia e do tratamento, por isso
o distanciamento. Então, meio arrependido depois da minha decisão, ele me
procurava, dizendo que um casamento de mais de década não podia terminar assim
e queria notícias. Em contrapartida, com um pensamento bem racional, não tinha
vontade de voltar atrás naquele momento. Estava muito confusa, de saco cheio da
doença, ansiosa em fazer o transplante etc. Logo, fiz uma lista das minhas
coisas que estavam em Viçosa para trazer a BH, como roupas e livros. Buscava algo
que pudesse me acolher num momento que, para mim, era ao mesmo tempo triste e
definitivo.
- Mas você vai morar sozinha?, escutei de
muitas pessoas.
- Sim, meus caros senhores, vou. Não há
pessoa em quem eu mais confie do que em mim mesma. Se passei por tudo o que vivi
até o momento e me mantive inteira, tenho currículo carimbado para tratar de
mim e da minha vida. Preciso de silêncio, preciso de paz, preciso me concentrar
na minha cura.
Minha amiga Nanda foi essencial para me ajudar
e, neste mote, para organizar a nova casa naquele momento. O apartamento
alugado veio cheio de pertences pessoais dos antigos moradores, como fotos,
panelas velhas, documentos e enfeites encardidos. Um dia ela deu uma saidinha e
chegou cheia de caixas, no intuito de enfiar tudo o que não prestava nelas.
- Thais isso aqui é um pote de margarina
sujo, que tipo de povo morava aqui?!
Eu a escutava com ternura em meio a
tristeza. Literalmente sem fôlego, contratei um depósito, junto com um frete, joguei
todas as caixas e alguns móveis feios lá. Comecei a arrumar a casa com as
minhas coisas, me reencontrando nos livros, nas roupas e nas quinquilharias
adquiridas ao longo da vida.
Neste mesmo contexto, a minha cachorrinha,
que parecia estar bem até então, começou a passar mal e eu tive de mandar
sacrificá-la. Minha companheirinha de dezesseis anos foi embora de uma hora
para outra. Admito que ainda não lido bem com o fato e nem sei comentar muito
sobre a questão. Só esclareço não haver nenhuma foto em casa, em um momento importante
ou banal, em que ela não esteja presente.
“Já não te encontro à espera ao pé da
porta”[1].
Perdi quem me ajudava a ensaiar uma rotina
minimamente saudável, apontando a hora de comer, passear e descansar. Ela quem
me ensinava a dividir meus dias, para além do trabalho, estando sempre ao meu
lado. Um pequeno furo no coração sangra de vez em quando sinto saudades dela.
Em meio a tudo, o médico J pediu para
marcar uma consulta. Fiquei ansiosa, porque não conversava com ele há tempos, sem
qualquer sinal sobre o transplante. Como estava muito anêmica, combinei com uma
amiga de ir sozinha ao hospital fazer uma transfusão de hemácias e, na hora
marcada para a consulta, ela me encontraria para que eu não encarasse o médico
J sozinha. Como disse antes, até então, ele não era lá tão amigável. No
entanto, enquanto eu recebia o sangue, ele se deparou comigo, disse não fazer
sentido a consulta, porque minha doença estava descontrolada. Afinal, ele tinha
acabado de descobrir que o último mielograma tinha constatado 22% de blastos. Não
entendi como isso não estava claro a ele, se estava a outros médicos.
Disse também que meu diagnóstico era
bastante grave, conter a doença era muito difícil e, provavelmente, teríamos de
avaliar possibilidades de um tratamento paliativo. Até então nada era novidade,
só a última parte me pareceu altamente preocupante. Por fim, para piorar,
afirmou que, se eu fizesse um transplante naquele estágio em que me encontrava,
eu teria 5% de chances de viver. Com tais notícias violentas batendo em meu
rosto, me questionou tranquilamente se eu estava bem, respondi um
“sobrevivendo” entre os dentes e ele se foi. Perguntei a uma enfermeira se o
médico J tinha ido embora em definitivo do setor. Com uma afirmativa, a abracei
e chorei dizendo estar fadada a morrer. Fiquei assim por uns cinco minutos, mas
logo depois minha cabeça deu um estalo e me dei conta de como a situação era
inusitada. Decidi agir de pronto.
Mandei uma mensagem para o médico Z e
expliquei o ocorrido.
- Que negócio era aquele de cuidados
paliativos? Que história era aquela de 5%? De onde saiu esse percentual?
Entre outras coisas, o médico Z disse que éramos
para seguir com o tratamento. Era para confiar nas escolhas feitas.
Vendo não estar na minha melhor fase, uma
médica próxima, componente da equipe do médico Z, numa consulta perguntou de
forma franca como eu estava. Eu disse não me encontrar muito bem, mas estava
juntando forças para caminhar. Ela mencionou ser estranho se eu estivesse o
contrário. Muito sensível, me indicou, então, um livro que talvez nunca caísse
em minhas mãos em outro contexto[2]. Suas páginas me ensinaram
que “se sobrevivermos hoje, amanhã seremos livres.” Perdi as contas de quantas
vezes já repeti essa frase em minha cabeça naquela época e em outros momentos
de dificuldade.
Além do livro, tivemos uma longa conversa
sobre a importância de tomar antidepressivo num momento tão complexo como o que
vivia. Talvez não seja mais novidade aqui ser esse assunto um tabu para mim,
pensando em como minha infância a questão era banalizada. Meus pais tomavam
medicação com este perfil sem o acompanhamento médico devido e, em vista disso,
jurava a mim mesmo nunca os tomar.
No entanto, o grau de dificuldade da vida
pode se tornar tão alto a ponto de ser necessário algum tipo de conforto -
repetindo as palavras de minha psicóloga. E o antidepressivo muito possivelmente
me ajudaria a cumprir esse papel, desde que tivesse acompanhamento médico. Cabe
destacar que, no início do tratamento de leucemia nem remédio para dor eu
queria tomar, tampouco me era oferecido no hospital onde me tratava. Contudo, no
estágio que descrevo, compreendi de forma escancarada que, somado ao tratamento
de câncer, cuja característica central é uma boa desestruturação individual em
diversos níveis, a vida se mantém em correnteza. Problemas ordinários seguem
perenes, como família, casamento, trabalho, entre outros aspectos da rotina.
Torna-se muito difícil, então, conciliar e
assimilar os fatos vivenciados como se todos fossem muito simples. Talvez
alguém consiga, mas, de minha parte, tive de quebrar um tabu e assumir que
sozinha não era mais capaz. Entretanto, meu receio com determinados remédios
não se desfez de uma hora para outra. “Vou tomar psicotrópicos agora, porque me
farão bem! Pronto!”. Essa opção tem sido trabalhada por mim diariamente.
Preciso dizer a mim mesma que sentir dor, por exemplo, deveria ser excepcional.
Não sou mais forte, porque finjo estar tudo bem durante uma cólica que me faz
dobrar ao meio.
Como resultado de toda esta conjuntura,
meu corpo parecia pedir socorro. Eu sobrevivia a um dia, mas no outro ficava
pior. Após um ano com leucemia, conseguia reconhecer quando estava pouco ou
muito anêmica. No entanto, além da anemia, parecia haver algo a mais. Comecei a
sentir dores no braço esquerdo e no peito, com os dedos formigando, além de respirar
com dificuldades. Num fim de semana em que programava passear no parque, pensei
ser melhor ir ao hospital. Achei estar enfartando. Fui parar na emergência, na
companhia de minha irmã Mariana que, à época estava no Brasil, e de lá os
médicos viram que minhas enzimas cardíacas estavam bastante alteradas. Não era
enfarto, mas tive uma infecção urinária, cujo produto foi uma septicemia, se
alastrando para o coração. Fui mais uma vez para o CTI para se certificarem
sobre o diagnóstico e depois de dois dias me encaminharam para o quarto
hospitalar.
Nunca fui das garotas mais românticas.
Costumo ser pragmática e racional em boa parte das situações, lembrando ser o
Tadzio não muito diferente. Tampouco acredito no amor romântico altamente
comercializado pelos meios de comunicação. Não imaginaria, então, que meu corpo
expusesse um problema emocional de forma tão literal. Só que, apesar do meu
orgulho, meu corpo gritava pelo meu marido. Meu coração entrou em sofrimento,
usando termos médicos e meus próprios. Não era o momento de tomar decisões drásticas
dada a sucessão de situações duras que aconteciam. Eu precisava dele. Nossas
águas deveriam voltar a se misturar.
10. “Sol de primavera”
A primeira viagem com Tádzio, dois meses
após estarmos juntos pela primeira vez, foi a Três Pontas, cidade no interior
de Minas Gerais, onde o cantor Milton Nascimento cresceu. Como morávamos no Rio
de Janeiro, foram quase 12 horas de ônibus apenas a ida e mais 12 a volta para
ouvirmos o cantor em sua cidade quase natal[3]. Apesar de uma viagem
simples, foi uma experiência significativa para mim. Desde lá, já fui a muitos
shows do cantor, junta ou separada do meu marido. O repertório dele e do Clube
da Esquina é como um pano de fundo do meu casamento. Muitas músicas funcionam
como gatilhos para fatos muito ou pouco importantes, mas quase sempre ternos.
Por isso, depois de uma verdadeira pororoca em minha vida, abro este capítulo
pensando no Beto Guedes e como a partir de setembro as coisas ganharam um novo
tom de modo quase súbito.
“Sol de primavera, abre as janelas do
meu peito”.
Assim quando soube que iria parar
novamente no CTI, liguei para Tádzio, pedindo para vir de Viçosa a BH. Ele ficou
como meu acompanhante todas as noites no hospital e depois passou um tempo em
casa comigo, ajudando a me restabelecer. A Mariana havia ido embora para os
Estados Unidos logo ao fim da minha internação. Esclareço, contudo, estar longe
de ser uma alma complacente e desculpar sem critérios alguém que me acho que fez
mal. O perdão não chega de uma hora para outra, sendo construído diariamente,
com paciência e persistência.
“Quero ver brotar o perdão, onde a
gente plantou”.
Em alguns momentos, me batia uma fúria
ensandecida contra o Tádzio, liberava a minha língua ferina e logo me
arrependia. Não sou uma pessoa nada fácil. De todo modo, entendi que essa
atitude só magoava a mim e a ele, não tendo qualquer efeito potente, a não ser
jogar para fora minha frustração. Em outros momentos, eu sentia uma ternura, ao
saber que ele se esforçava ao modo dele para lidar com o que passávamos.
- Não sou vilão, nem herói, Tatá. Errei ao
me afastar, nem sempre tomo as decisões mais acertadas, mas quero seguir me
esforçando. Faço o que posso e estou junto contigo até o final.
A distância, com a volta do Tádzio para
Viçosa para o fim do semestre universitário, foi essencial para eu botar a
cabeça no lugar. Tive acesso de choros, medo do abandono, pânico e crises de
ansiedade. Abracei todos esses sentimentos, não os afugentava, com a real
vontade de ficar bem. Precisava voltar ao meu eixo e não nadar à margem do rio,
cuja parte me levaria a lugar algum. Para isso precisava enfrentar a mim. A
questão não era matrimonial tão só, era o turbilhão de problemas a ser digerido.
Antes conseguia articular o que sentia e manter um relativo equilíbrio, com
exceção do período fatal do fim da remissão, mas que tão logo me restabeleci. De
agosto em diante, porém, eu me sentia afundar cada vez mais.
Como primeiro passo, como já disse, comecei
a tomar antidepressivo, além de remédio para dormir. Ainda, retornei à análise
e não fugia das sessões. Com exceção do período em que minha amiga Silvia ficou
comigo em casa, por uma semana, passava basicamente o tempo todo sozinha. Queria
estar só. A solidão, quando é uma opção, pode ser a companhia mais conveniente.
Me fiz cumprir, então, uma rotina que sabia me fazer bem: exercícios físicos
periódicos, comidas feitas por mim, parei de trabalhar, pedindo licença da
UFMG, ao mesmo tempo em que as consultorias estavam meio estacionadas. A única “obrigação”
dada por mim era ler. Exauria um livro por semana, passando horas a fio na
minha poltrona lendo.
Criei o hábito também de fumar charuto.
Sempre gostei do cheiro e do gosto deste fumo, não tendo coragem, todavia, de
fumá-lo, afinal, dá câncer. “That ship
has sailed”, pensei comigo mesma. Com a anuência dos médicos, passava bons momentos
do meu dia saboreando meus charutos, pensando na vida. Esse era meu mundo na
casa da cura, tudo ao som do piano tocado diariamente pela vizinha de cima,
música que funcionava quase como uma meditação (e que escuto no momento que
escrevo este parágrafo).
Óbvio que essa “receita” não era infalível
e as crises de ansiedade persistiram. Mas me acalmei um pouco. A alma amainou.
Melhor, o tratamento começou a ganhar uma nova proporção, marcada por uma
rapidez inesperada depois de tantos meses de lentidão. O rio saiu de águas quase
paradas, formando-se uma verdadeira corredeira.
Se antes estava com 22% dos famigerados
blastos, um novo mielograma, muito doloroso por sinal, indicou ter meu corpo reduzido
as células para 8%. Neste contexto, não muito ideal, claro, eu poderia fazer o
transplante. Iniciaram-se, então, os exames pré-procedimento e as consultas com
equipe interdisciplinar. Fui a uma conversa com o médico J em que me foi
explicado mais uma vez o quão perigoso seria o transplante e, finalmente, me
passou um cronograma de ações, com a data da internação. Optei por ficar
quieta, escutando. Meio sem graça, depois de possivelmente ter levado algum
puxão de orelha em razão de nosso último encontro, ele perguntou o que eu
achava de tudo aquilo.
- Senhor doutor, escutando as suas palavras,
acho que prefiro ir para praia, ficar tomando caipirinha e esperar a morte
chegar. Tenho completa confiança sobre sua competência técnica, tanto que escolhi
o senhor para fazer o transplante, não outra pessoa. Mas, creio que lhe falta
um pouco de humanidade. Falta capacidade de passar esperança ao paciente.
- Thais, se eu digo essas coisas é para te
proteger.
- Não, Doutor J, é para o senhor se
proteger. Sou adulta, vivo a doença há mais de um ano. Depois de tudo o que
passei, já não tenho nada a perder. Vou fazer este transplante. Mas precisamos
agir como uma equipe. Com sua atitude, acho que não vai funcionar. Da minha
parte, por outro lado, estou disposta a ser sua parceira.
Ele emudeceu, pois faço uma enquete de que
nenhum paciente deve tê-lo abordado desse modo. De todo jeito, a partir de
então a relação com o médico J se transformou. Comecei a me sentir
verdadeiramente respeitada por ele.
“A lição sabemos de cor, só nos resta
aprender”.
Arrumei minha mala para a internação
hospitalar, combinei com a Lívia os dias quando ela ficaria no Brasil e comprei
sua passagem, assim como contratei uma cuidadora para o tempo em que Tádzio não
poderia ficar comigo para conseguir fechar o semestre na universidade. Com uma
roupa nova e maquiada, no primeiro dia do tratamento, ainda em fase
ambulatorial, fui com um sorriso no rosto ao hospital, na certeza de que aquele
momento era o início da cura. Não seriam os percentuais que indicavam a
gravidade da leucemia, as dores históricas familiares, questões pessoais e
tantas outras questões atravessadas em minha cabeça que me tirariam do foco. Eu
queria ficar boa, eu queria retomar minha vida e ser quem eu quisesse depois de
passado o horror.
Fui também mais uma vez a Viçosa ver minha
casa lá. Fiquei nostálgica ao notar meu escritório vazio, sabendo, no entanto,
onde estavam as coisas que antes o preenchiam. Conheci alguns amigos do Tádzio,
ele fez um de seus tradicionais churrascos regados a cerveja, passeei pelo
campus da linda UFV e vi meus lugares preferidos da cidade. Assistimos a
apuração das eleições presidenciais juntos, choramos e rimos como não fazíamos
há tempos com o resultado. As trevas bolsonaristas pareciam dar lugar a um
governo mais afeito às garantias individuais.
Fecho este período com o último show do
Milton de sua vida, turnê finalizada no estádio do Mineirão em BH em novembro
de 2022. Fui liberada pelos médicos para ir e, com um ingresso comprado pelo Tádzio
há tempos, fomos nós dois mais uma vez escutar aquele que sempre fez parte de
nossa história. Quem nos vê, percebe que formamos um casal sem muito costume de
nos tocarmos em público. Somos meio secos. Naquele dia, porém, o Tádzio ficou o
tempo todo claramente emocionado com os braços em volta do meu ombro. Me senti acolhida
com o abraço, além de conseguir reconhecer de novo meu marido. Ao final do show,
ele disse estar agora preparado para “lutar a maior luta que ele viveria na
vida”. Eu também estava.
11. Afinal, o transplante
Eu
finalmente chegava ao momento que, até então, considerava alto no meu
tratamento de leucemia mieloide aguda. Dessa vez realmente parecia que o procedimento
se concretizaria, mesmo que o cenário não fosse o ideal, pensando nos tais
blastos remanescentes. Mas eu não tinha nada a perder. Apenas pensava ser o
transplante uma fase essencial para a minha cura.
Eu estava com medo? Óbvio que sim. Posso fazer
algumas coisas, as quais certas pessoas tendem a pensar que sou destemida, mas
o medo me ronda de vários modos, em diversos momentos. “Eu tenho medo e já
aconteceu; eu tenho medo e inda está por vir”, me diria Belchior. Meu único esforço, que
não é pouco, além de duro muitas vezes, é de que esse medo não me impeça de
fazer algo potente para mim e para os que estão a minha volta, sobretudo em meu
tratamento. Por outro lado, tendo a relativizar ser o medo um sentimento “mal”.
Ao contrário. Ele pode funcionar muito bem como uma espécie de seta ou freio,
cuja função é mostrar nossos limites, o que parece potencialmente favorável a
nós mesmos.
Dito isso, após a internação, começou todo
o protocolo previsto pelos médicos, iniciando-o com a chamada plasmaférese,
cujo resultado é separar o plasma do sangue por filtração ou centrifugação. A
proposta era diminuir o número de anticorpos no meu sangue, reduzindo as
chances de eu rechaçar a medula da Lívia. Leigamente explicando, sou conectada
através do cateter implantado em meu corpo a uma máquina e filtram todo o
sangue, retirando o plasma. A primeira experiência foi um pouco assustadora. Tinha
acabado de chegar ao quarto de hospital, depois de horas de espera com a
burocracia de plano de saúde para internação. Deixei as malas em qualquer lugar
e iniciei um procedimento que considero invasivo. Tentei ir ao banheiro após
seu término e não tinha força nas pernas. Comecei a chorar pensando que, se no
primeiro dia do cronograma do transplante seria assim, como seria o resto?
De todo modo, essa fase de plasmaféreses e
outras ações de preparação para o recebimento da medula em si foram
relativamente simples. Nem se comparavam aos ciclos de quimio pelos quais já
tinha vivenciado. Neste momento, me encontrava com a Tati, minha cuidadora, e
tínhamos uma rotina relativamente boa, dado o contexto experimentado. Desde o
primeiro dia que nos conhecemos começamos a criar um laço de carinho uma com a
outra e sentia estar com uma amiga, não com uma profissional. Tive sorte.
No dia em que o Tádzio chegou recebi o
sangue da minha irmã. A Lívia produziu um número considerável de células, o que
tornava as chances de a medula “pegar” muito maior. Um misto de sentimentos
pousou sobre mim (e imagino que com a minha irmã). Se éramos unidas e nos
amávamos, criávamos a partir de então uma nova espécie de ligação. Eu teria seu
sangue em minhas veias. Eu a receberia em mim de uma forma totalmente diferente
de antes imaginado. Admito que ainda não sei explicar a profusão de emoções
daquele momento. Mais, sinto ainda não ter elaborado bem o que vivenciei. Para
além da ocasião do recebimento do sangue, vendo a vida de modo mais abrangente,
eu não viajava por águas caudalosas ou escassas demais, como tinha experenciado
no tratamento em determinadas circunstâncias; não me afogava ou me rastejava em
terrenos lamacentos. Viajava num território coberto de plantas esquisitas que me
impediam de ver o rio.
Dito isso, o transplante se dividiu em
duas partes, para além de todos os protocolos anteriores como a plasmaférese: o
primeiro foi receber uma bolsa de anticorpos da Lívia os quais, com base numa
explicação bem tosca, “enganaria” meus anticorpos e, assim, a medula nova
poderia ser mais bem recepcionada. Essa bolsinha seria uma espécie de Cavalo de
Tróia que, a princípio, o corpo receberia, mas, em seguida, notaria os
elementos “inimigos”, atacando-os. A partir deste momento, comecei a sentir
algo estranho, como se realmente uma guerra se iniciasse dentro de mim. O
segundo momento, de grande emoção, foi receber a bolsa de sangue com a medula
da minha irmã. Junto com a confusão de sentimentos, fiquei muito agradecida a
toda a equipe de saúde, além de pensar em todas as pessoas que estiveram comigo
para conseguir chegar àquele momento. Eu e o médico J sorrimos e nos abraçamos.
No entanto, o cenário começou a mudar de
uma hora para outra. Minha pressão, cuja característica já é ser baixa, caiu
ainda mais. Nada a fazia aumentar. O entendimento do Médico J era de que, meu
cateter, muito manuseado durante os inúmeros procedimentos anteriores, deu
sinais de infecção assim que um corpo estranho entrou em mim. Tinha de tirá-lo
e colocar outro, como já tinha acontecido muitas vezes anteriores (tenho
diversas cicatrizes no peito de cada cateter colocado). A solução, então, era
tomar noradrenalina, um neurotransmissor com ação vaso dilatadora que, entre
outras coisas, degrada glicogênio em glicose. Em outros termos, eu faria mais
uma passagem para o CTI. Mais uma visita. Mais um tempo amarrada a fios, monitorizada
a todo o momento, com completa perda de autonomia. Uma das minhas serpentes se
enroscava no meu pé. Disse a mim mesma que não ficava naquele lugar nem 48
horas.
A primeira medida tomada foi tirar o
cateter infeccionado e incluir um acesso periférico. Onde? Eu não tinha mais
veias para isso em razão das quimios que tornaram as veias, por exemplo, muitos
finais. O único local disponível era a jugular. A cena, então, eram vários médicos,
técnicos e enfermeiros no meu entorno, em um quarto minúsculo. Colocaram um
pano estéril em cima de mim, impossibilitando eu ver algo. Sem anestesia, mas
apenas um pouco de morfina, tiraram o cateter infeccionado e colocaram o acesso
novo no pescoço. Senti muita dor. De início estava calada; ao final chorava
igual a um bebê. Só queria que passasse e eu finalmente conseguisse dormir. A
ternura da esperança de algumas horas atrás, ao receber a medula da minha irmã,
foi em alguma medida pisoteada para a rotina real do tratamento.
Não fiquei nem dois dias no CTI. Uma de
minhas promessas é de que não voltaria para lá, apenas em caso de extrema
urgência, em que minha vida estivesse em jogo. Pude voltar para o quarto e
descansar. No entanto, deixo claro desde já haver uma espécie de imaginário em
torno do transplante que é irreal, pelo menos o que pairava sobre mim. Meu
aprendizado é de que o procedimento seria uma fase (muito importante) de um
tratamento de uma doença grave, mas está longe de ser o personagem principal.
Talvez, o suposto que nos ronda seja para garantir um mínimo de esperança, pois
se submeter a um transplante pensando nas fases posteriores é muito duro. Entretanto,
há etapas subsequentes as quais não devem ser ignoradas, já que manterão a
pessoa ainda viva.
Como disse, estava indo bem antes do
transplante. Conseguia manter um ritmo de atividades físicas no hospital, comia
regularmente, apesar de não muito, comecei a escrever este diário para manter a
sanidade mental, conversava com minha acompanhante Tati e nos divertíamos. Mas,
desde o procedimento, depois de dois dias de susto no CTI, tudo mudou. Se eu
tivesse de me definir neste momento, se eu tivesse essa real capacidade, me
remeteria àqueles personagens de desenho animado alvos de uma bigorna e, assim,
ficaram com passarinhos rodeando a cabeça.
Não conseguia rir. Só pensava precisar
resistir a mais um dia. Se eu sobrevivesse ao próximo, talvez aquilo acabasse. A
melhor parte de tudo era saber que dormiria de fralda e teria alguma segurança,
evitando um bom susto à noite. Os psicotrópicos também caíam muito bem, mas só
alimentavam os passarinhos na cabeça. Era muita medicação, falta de apetite,
privação do sono, falta de autonomia, inflamação de todas as mucosas do corpo,
febres altas e, às vezes, até uma falta de amor por mim mesma. Tudo junto e
misturado. Claro, talvez fosse pior. Poderia estar amputando uma perna, já me
disseram. Mas é possível mensurar a dor? É possível dizer que fulano sofre mais
do que ciclano? Há parâmetros objetivos testados para tanto?
Na verdade, pensava que meu corpo se
chamava dor. A garganta inflamada pela mucosite, mal me deixava falar e, depois
de alguns dias, partes dela passaram a ser eliminadas pela boca. Nojo. Minha
língua pareceu ter dobrado de espessura, apresentando uma coloração indefinida.
Enjoo, cansaço, fraqueza, dores de barriga, confusão mental. Pior, câimbra anal
e vaginal. Quanta dor. Que dor. Um dia, em posição fetal, me revirei não sei
por quanto tempo na cama gemendo não por motivos agradáveis. A palavra do
momento foi, então, morfina. Um adesivo do remédio foi colado no ombro, fora as
doses ministradas pelas enfermeiras de quatro em quatro horas do remédio.
Tudo, assim, se amortecia. Eu saía de mim,
embora parecesse me manter no quarto e escutasse seres inaudíveis, enquanto literalmente
conversava com eles. Pronunciava palavras, com som, embora não fazia ideia com
quem falava. O mundo girava e eu não sentia, porque estava em algum lugar
próprio, afugentada do padecimento, totalmente entorpecida.
O estranho era escutar dos técnicos de
enfermagem e dos enfermeiros estar ótima. Diante do que eu havia passado e da
gravidade do meu transplante, eu parecia muito bem. A fulaninha do quarto ao
lado se alimentava por sonda. O ciclaninho do outro corredor foi pro CTI. Já eu...
Eu tomava banho sozinha! Mais, eu tomava banho. O adolescente rebelde do quarto
da frente fedia há não sei quantos dias. Mal sabiam que o banheiro era meu
único momento de privacidade e, doidona, no chuveiro, podia sentir livremente,
sem ter de dar explicações a ninguém.
O foco de todo o processo era eu; não havia
dúvidas disso. No entanto, eu não me encontrava em sofrimento sozinha naquele
quarto hospitalar. O Tádzio, com seu jeito taciturno que poucos conhecem,
assistia e auxiliava em todos os procedimentos. E, é quase uma obviedade
mencionar que, apesar de ele não proferir literalmente, a dor palpitava nele
também, não era só minha. Claro que seu sofrimento era diferente, não físico,
mas, sobretudo, mental. Como ele estava quase sempre de cara fechada, por um
segundo, o questionei se ele estava pouco à vontade naquele papel de cuidador;
em sentir toda a intensidade daquele momento nada simples. Meio tosco, obtive
como resposta:
- Só saio daqui contigo boa.
E assim foi, pelo menos por um tempo.
13. Caminho pós-transplante
Enquanto
escrevo esta página, faço o cálculo de que há quase seis meses fiz o
transplante de medula óssea. Segundo meus planos, agora, estaria voltando ao
trabalho, começando a rever amigos, indo esporadicamente a Viçosa, apesar de
manter alguns procedimentos regulares do tratamento. No entanto, ao se tratar
de mim, nada é em linha reta.
Recebi
alta hospitalar um pouco antes do Natal. Tádzio e eu viemos para a casa onde
aluguei. Não foi o melhor fim de ano que passamos juntos, pois a ideia era eu
me manter isolada ao máximo para não correr o risco de infecções. Cabe lembrar
que, após o transplante, o sistema imunológico da pessoa é igual a de um bebê.
Os anticorpos adquiridos ao longo da vida, como os trazidos por vacinas, por
exemplo, caem por terra. Então, eu tinha de ficar resguardada, o que implicava
o Tádzio também. De início, ele ficou bem tranquilo, mas, com o passar dos
dias, queria fazer atividades de seu interesse rotineiro, como ir à academia.
Somado a isso, minha médica, que chamarei aqui de médica T, me falou que estava
com um tipo de herpes que eu devo ter transmitido a mim mesma.
Precisava, então, ir durante pelo
menos quatorze dias, durante mais ou menos seis horas, tomar medicação venosa no
hospital onde fazia meu tratamento. Com a notícia, o Tádzio ficou culpado
achando que tinha me passado infecção e criou uma série de regras relacionadas,
por exemplo, ao uso de talheres, as quais tornariam a convivência em casa difícil.
Para além deste aspecto, eu estava muito frágil emocionalmente e escrevo sem
qualquer timidez estar à época com vergonha do meu marido. Estava careca, com o
corpo todo machucado, esquelética e tinha perdido a capacidade de andar
normalmente. Eu tropeçava a cada passo após tanto tempo deitada no leito de
hospital. Conversei sobre minhas inseguranças com o Tádzio, mas para ele nada
fazia sentido. Dizia:
- Você está viva. Isso é o que me
importa.
Entretanto, para mim não era tão
simples. Comprei perucas, voltei a fazer ginástica, usava roupas em casa mais
arrumadas; nada aumentava minha autoestima. Entendi que era tudo uma questão de
tempo e não foi sem alívio quando Tádzio e eu, depois de quinze dias em casa,
chegamos à conclusão de que seria melhor ele voltar a Viçosa. Eu ficaria
sozinha, mas, por outro lado, me sentia mais forte e estava acostumada às
rotinas de remédio e médico. E, de fato, passei um mês ótima cuidando de mim
mesma. Eu me sentia curada, porque novamente me sentia forte.
Por outro lado, passada a primeira
infecção, veio logo em seguida uma nova, com mais quinze dias de medicação indo
ao hospital diariamente. Daí então, meu bem-estar pareceu desandar. Era
carnaval e obviamente, dentre os motivos explicados antes, não podia colocar
uma fantasia e pular para a rua. Fora que tinha de estar no hospital todos os
dias, além de, me sentindo frágil, ter de cuidar de mim em casa. Falei com a
médica T, tentando chamar a atenção para o fato de meu hemograma estar estranho
(com um número de células de defesa muito alto) e, em resposta, ela pensou que
eu estava deprimida e aumentou a quantidade de psicotrópico.
Meio consternada, conversei, então, com o
médico Z, obtendo uma resposta mais definitiva.
- Thais, pelos seus últimos hemogramas,
tudo indica que a doença voltou. Não sabemos se você “perdeu” a medula da Lívia,
mas há realmente chances de esse aumento de células de defesa indicarem um
aumento de blastos no sangue. Vamos marcar um novo mielograma para confirmar
nossa suspeita.
Liguei para o Tádzio, expliquei a
situação, ele voltou para minha casa e nos preparamos não apenas para um
mielograma, como também para uma nova internação. O exame de medula foi muito
doloroso e, ao sabermos o resultado, ficamos sabendo que eu teria de ser
internada. Além do retorno da doença, eu estava com uma grave infecção nos
pulmões, de difícil recuperação. Como eu não podia ficar sem acompanhante nem
por um segundo, o Tádzio armou todo um esquema de revezamento de amigas e adaptou
a agenda dele. Sou muito grata à Sabrina, Tati, Raquel, Nanda, além do meu
marido por terem cuidado de mim. Sou mais agradecida ainda a equipe de saúde do
hospital por não ter me deixado só nem a um momento. Agradeço também às minhas
irmãs que, já no fim deste período, chegaram com seus respectivos maridos, mais
minha sobrinha Janaína.
Foram no total setenta dias de internação.
Nunca havia passado tanto tempo privada da minha liberdade, sofrendo efeitos
colaterais duros de remédios e os sintomas das infecções. Curada a infecção nos
pulmões, comecei um novo ciclo de quimioterapia, o mais pesado de todos pelos
quais já tinha passado. Inchei quase sessenta quilos, não conseguia me levantar
da cama, tive muitos problemas com os cateteres implantados em mim, sentia
muitas dores etc. Em vista disso, passava os dias sob efeitos de psicotrópicos,
o que me perturbava bastante, pois não gostava de perder o controle sob meus
atos. Se deixasse, dormia o dia todo, ou mesmo, passava os dias acordada, mas
como se estivesse em outra realidade. Foi duro, bastante duro. Eu me sentia
definhar ou, em determinados momentos, quando inchada, não conseguia me mover.
Precisava que muitas pessoas me ajudassem a simplesmente me virasse da cama.
Fico triste em lembrar desses dias. Não
era escolha minha estar ali. Estava sob um sofrimento enorme, mas, ao mesmo
tempo, nunca me senti tão amada. Para além das pessoas que me acompanham na
vida, como amigos e família, tive a oportunidade de conhecer pessoas
fantásticas que se doavam a mim sem eu pestanejar, sobretudo, as técnicas e
enfermeiras. Situações naturalmente muito pesadas podem se tornar quase brandas
quando há amor e empatia em jogo. Então, mesmo que o dia estivesse uma “bosta”
(palavra que usava com frequência), não deixava de sorrir com as histórias que
me contavam. Um exemplo desse afeto: todos os dias pela manhã, ou no início de
plantão, o senhor da ambulância batia na porta do meu quarto para saber como eu
estava.
Não quero relativizar a dor. Só quero
dizer que, em determinadas circunstâncias, há flores nas margens dos rios.
Inexiste apenas mata fechada e obscura. Os olhos devem ficar atentos a isso,
embora não seja simples.
A proposta do meu tratamento, neste
momento, é incerta. Tomo uma medicação que estimula uma mutação fruto do
transplante de medula da Lívia, a qual pode auxiliar na diminuição dos blastos
no sangue. Cabe ressaltar que a quimio feita nestes dias de internação foi tão
forte que demorei a recuperar o funcionamento das células sanguíneas. Isto é, o
órgão deixou cumprir sua função por um tempo. Vivia, então, através de
transfusão de hemácias e plaquetas. Neste meio tempo, se os blastos tinham
diminuído entre 3% e 6% no penúltimo mielograma, eles estavam superiores a 50%
no último. Ou seja, tenho ainda um longo caminho a percorrer.
14. Carta para Thais
Belo Horizonte, algum dia de maio, de
2023
Quantas
agulhadas você recebeu neste último ano e meio, Thais? Quantas pessoas a
tocaram? Quantas a viram nua? Quantos remédios diferentes você tomou? Quantos
litros de sangue você recebeu e quantos foram retirados de você? Quem você se
tornou nos últimos tempos? Como foi dito nos primeiros capítulos, a história
aqui apresentada não ganharia um final triste ou feliz. “Sim, o tratamento
funcionou”; “não, a leucemia se alastrou a ponto de gerar a morte”. O foco
proposto foram os percursos de sua vida, Thais. Os “sobe e desce ladeira”[5], os quais podem fazer parte de
qualquer trajetória.
Você
não é, então, a heroína ou a vítima de algo. Você nunca se compreendeu deste
modo, nem mesmo nos momentos mais complicados de sua infância e adolescência. Os
acontecimentos partilhados em seu percurso e a forma como você os vivenciou
podem até ser louváveis em determinados momentos. A coragem, apesar do medo
constante, a definiu em muitas situações. Entretanto, isso não a torna mais ou
menos especial em relação às outras pessoas que tenham vivido experiências
parecidas às suas.
Talvez
as palavras usadas sejam duras, ou mesmo depreciativas na superfície, mas, na
realidade, ajudam a tirar um peso imenso de suas costas. O que você viveu até o
momento é cruel, não há dúvidas disso. Entretanto, seu maior mérito é sempre
escolher a vida, ainda que, mesmo que contraditoriamente, não haja demérito
entre aqueles que se cansam ao longo do caminho. Ou seja, você foi atrás do que
queria para sua existência e tem lutado por isso. Essa atitude é a mais humana
que poderia existir, retirando-a do lugar de mártir ou de herói. Colocar-se em ambos
os papéis seria mais fácil. No entanto, sua opção tem sido agir com as
ferramentas que a vida te deu e ponto final. Apesar de aparentemente modesto,
tal escolha não é nada simples.
Em consequência, você tem sempre ficado atenta
ao rio, aos seus meandros, as plantas de sua margem, aos afluentes, entre
outros elementos que o constituem. Cansa. Como cansa. Estar à deriva seria uma
escolha muito mais simples. Só que esse caminho não necessariamente a manteria
viva, tal como você está até aqui. “Até a hora da nossa morte, amém”, não foi
um dos aprendizados ouvidos tortamente ao lado de sua avó em sua infância? A
regra é a morte, a exceção é a vida. Tentar ultrapassar a primeira é a sua busca
para se manter na segunda. É o seu ato de fé, aguçado pelo rastejo das
serpentes.
Elas,
trazidas ao âmbito do tangível, saem da condição de horror e se tornam suas
aliadas. Grandes parceiras, por sinal. Além de ajudarem a você trocar de pele, a
se renovar a cada fase do tratamento, elas a fazem enxergar o despercebido.
Nada
do que digo estima o câncer, o transfigura em elemento de regeneração, cujo
efeito é a redenção pessoal. Esse tipo de perspectiva ganha, na verdade, uma
face individualista, fundamentado na superficialidade de uma tal gratidão, a
qual nem vale a pena entrar em minúcias. Você pode ficar sanguínea com este
assunto, o que no momento pode ser pouco salutar. No entanto, quero deixar
claro que, apesar do câncer, você não necessariamente deixou de notar as flores
que tocam toda a beirada do seu rio. E são flores lindas, exóticas,
multicoloridas, cuja característica é mudar de cor e textura a cada mirada. Se
o mundo pode ser cinza com a leucemia (e com outros aspectos também, claro), é
uma questão de referencial buscar as diferentes cores que o compõe.
Em
realidade, as flores aqui são metáforas do “afeto”. Não do amor romântico
clichê, desses vistos em filmes de comédia decadente; mas do sentimento repleto
de empatia, de pessoas realmente dispostas a vivenciar alguns acontecimentos,
às vezes cruéis, contigo. Ou, ao menos, de seres que buscam se colocar em seu
lugar. Nesse sentido, como você é amada; como você é querida; como recebeu
apoio de pessoas que nem mesmo você sabe o nome.
O
mais encantador foi você ter conseguido buscar o amor em situações altamente
estéreis, como quase três meses consecutivos de dura internação ou no momento do
transplante. Como você gosta de dizer, a questão é “arriar, mas não cair”. E
você apenas não se esfacelou no chão, em razão do seu amor por si mesma, do
amor pela vida, do amor pelos outros e do amor genuíno que muitos sentem por
você. Em um cenário assim, uma dor visceral segue calejando o corpo e a alma.
Tal sentimento não é passível de relativização. Por outro lado, é amortecido.
Afinal, alguém está contigo para dar uma bolsa de água quente durante uma crise
de cólica avassaladora.
Se
de início você tinha receio de receber o apoio do outro, seja por orgulho, seja
por medo, ao longo do processo narrado, você parece ter compreendido que sua
sobrevivência depende deste amor. Claro que algumas relações se esgarçaram. O
câncer tem seu preço. Outras pessoas bambearam, mas voltaram à sua posição.
Mais complexo ainda, não deixaria de dizer daquelas interações encerradas com
um grande ponto final, sem direito a reticências. Estes casos demonstram, em
boa medida, seu amadurecimento durante o tratamento.
Em
outras palavras, foram muitos meandros, afluentes, águas de cores distintas que
formaram seu rio no recorte de trajetória espelhado nos textos publicados neste
blog. Outras correntes virão e, no caso de você temê-las, tenha sempre em mente
que isso é a vida. Vai passar. Ninguém entra duas vezes no mesmo rio, como
dizem por aí.
***
Forneço um fim ao blog, sem um término
propriamente dito, indicando o que se passou nos últimos tempos. Aprendi ser
mais importante o percurso, ao invés de um grand finale, digno de filmes
de Hollywood. Minha proposta não era, tampouco nunca foi essa. Ao contrário. A
intenção foi apontar que a vida é cheia de altos e baixos, não sendo um mero
isto ou aquilo. Só que, ao vivenciá-la de um dia de cada vez, podemos estar
mais atentos aos meandros de nosso próprio rio, sobretudo, às flores do
caminho. Claro que isso é uma opção e não julgo quem não o faz. A vida pode ser
uma grande sucessão de infelicidades objetivas. Quem vive é quem sabe. Só que,
dentre aqueles que conseguem olhar para os afetos e reconhecer o olhar empático
dos outros, asseguro que as vias podem ficar mais fluidas.
Agradeço a todas/os que leram meus textos
e interagiram comigo em meu blog (e fora dele). É muito difícil se expor, trazendo
à tona aspectos não tão bonitos da vida. A influência de vocês foi fundamental.
Um grande beijo e vida longa!
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